A diabetes é uma das doenças crónicas que mais tem crescido nas últimas décadas, muitas vezes acompanhada por outro problema igualmente preocupante: a obesidade. Para o Dr. Lair Ribeiro, esta relação não é uma coincidência. Pelo contrário, diabetes e excesso de peso podem fazer parte de um mesmo problema metabólico, no qual a resistência à insulina desempenha um papel central.
O Dr lair apresenta uma visão crítica sobre a forma como muitos casos de diabetes são tratados, questionando uma abordagem excessivamente centrada na medicação e defendendo uma maior atenção à alimentação, ao metabolismo e ao estilo de vida. Uma das suas principais preocupações está relacionada com a utilização da insulina em determinados contextos, especialmente quando o tratamento é acompanhado por aumento de peso e agravamento da resistência à insulina.
É importante, no entanto, interpretar este tema com responsabilidade. A insulina é uma hormona essencial e, para muitas pessoas com diabetes, o tratamento com insulina é indispensável e pode salvar vidas. Nenhuma pessoa deve interromper, reduzir ou alterar a sua medicação sem acompanhamento médico. As ideias apresentadas neste artigo baseiam-se no conteúdo do Dr Lair e devem ser encaradas como uma reflexão sobre a complexidade da diabetes e a importância de uma abordagem individualizada.
A questão central é simples, mas profundamente importante: será que o tratamento da diabetes deve limitar-se a controlar os níveis de açúcar no sangue ou deve também procurar compreender as causas metabólicas que levaram ao desenvolvimento da doença?
A relação entre diabetes e obesidade
Uma das ideias mais fortes apresentadas pelo Dr. Lair Ribeiro é a de que a diabetes e a obesidade aparecem frequentemente associadas. Segundo a sua perspetiva, muitos dos doentes que chegam aos consultórios apresentam simultaneamente excesso de peso e alterações no metabolismo da glicose.
Esta associação não deve ser ignorada. Quando existe aumento da gordura corporal, especialmente na região abdominal, o organismo pode começar a responder de forma menos eficiente à insulina. Este fenómeno é conhecido como resistência à insulina.
A insulina é uma hormona produzida pelo pâncreas que ajuda a transportar a glicose do sangue para as células, onde pode ser utilizada como fonte de energia. Quando as células começam a responder menos à insulina, o organismo pode compensar produzindo quantidades cada vez maiores desta hormona.
Durante algum tempo, o corpo consegue manter os níveis de açúcar relativamente controlados através de uma produção elevada de insulina. Porém, com a progressão da resistência à insulina, o pâncreas pode deixar de conseguir compensar adequadamente. É neste contexto que podem surgir alterações persistentes da glicemia e, posteriormente, a diabetes tipo 2.
O problema é que este processo pode desenvolver-se durante anos sem sintomas evidentes. Muitas pessoas só descobrem que têm um problema metabólico quando realizam análises de rotina ou quando já surgiram complicações.
A insulina e o aumento de peso
O Dr. Lair Ribeiro chama a atenção para o facto de alguns tratamentos com insulina poderem estar associados ao aumento de peso. A ideia apresentada é que a insulina tem efeitos anabólicos e pode favorecer o armazenamento de energia no organismo.
Quando a glicose não consegue entrar adequadamente nas células ou quando existe excesso de energia disponível, o organismo pode armazenar parte dessa energia sob a forma de gordura. Em determinadas situações, o aumento de peso pode dificultar ainda mais o controlo metabólico.
Este é um dos pontos mais controversos abordados pelo médico. É fundamental sublinhar que isso não significa que a insulina seja um tratamento inadequado para todas as pessoas. Para indivíduos com diabetes tipo 1, por exemplo, a insulina é essencial à sobrevivência. Também existem pessoas com diabetes tipo 2 que necessitam de insulina para controlar adequadamente a glicemia.
A questão é sobretudo a necessidade de olhar para o doente como um todo. Não basta observar apenas o valor da glicose num determinado momento. É necessário analisar o peso, a alimentação, a atividade física, a função do pâncreas, a resistência à insulina e todos os fatores que podem estar a influenciar a evolução da doença.
O problema da resistência à insulina
A resistência à insulina é um dos conceitos fundamentais para compreender a ligação entre diabetes e obesidade.
Imagine que a insulina funciona como uma chave que permite à glicose entrar nas células. Quando existe resistência à insulina, é como se a fechadura começasse a funcionar mal. O organismo continua a produzir mais chaves, mas as células continuam a responder de forma insuficiente.
Como consequência, o pâncreas pode produzir cada vez mais insulina. Durante algum tempo, os níveis de glicose podem permanecer relativamente normais, mas à custa de níveis elevados de insulina no sangue.
Este estado de hiperinsulinemia pode estar associado a alterações metabólicas importantes. O organismo pode ter maior dificuldade em utilizar a gordura como fonte de energia e pode favorecer o armazenamento de energia em excesso.
A pessoa pode entrar num ciclo difícil de interromper:
- A resistência à insulina aumenta.
- O organismo produz mais insulina.
- O armazenamento de gordura pode ser favorecido.
- O aumento de gordura corporal pode agravar a resistência à insulina.
- A glicemia começa a subir.
- A diabetes pode desenvolver-se ou agravar-se.
Este processo ajuda a compreender por que razão a diabetes tipo 2 não deve ser vista simplesmente como um problema de “açúcar elevado”. Trata-se de uma doença metabólica complexa.
A alimentação tem um papel fundamental
Outro ponto que o Dr. Lair Ribeiro defende é a crítica à falta de orientação nutricional adequada em muitos contextos de tratamento.
A alimentação é uma das ferramentas mais importantes para controlar o metabolismo. No entanto, mudar hábitos alimentares pode ser difícil, especialmente quando uma pessoa passou décadas a consumir determinados alimentos e a seguir padrões familiares.
Uma dieta baseada em excesso de produtos ultraprocessados, bebidas açucaradas, doces, farinhas refinadas e alimentos muito densos em calorias pode contribuir para o aumento de peso e para a resistência à insulina.
Por outro lado, uma alimentação mais equilibrada pode ajudar a melhorar o controlo metabólico. Dependendo das necessidades individuais, pode ser importante dar maior atenção a:
- alimentos ricos em fibra;
- legumes e hortícolas;
- fontes adequadas de proteína;
- gorduras de melhor qualidade;
- alimentos pouco processados;
- controlo do consumo de açúcar;
- redução do excesso de produtos ultraprocessados.
Não existe uma dieta universal que funcione da mesma forma para todas as pessoas. Uma estratégia alimentar deve considerar a idade, o peso, o nível de atividade física, as preferências pessoais, outras doenças e a medicação utilizada.
Por isso, a orientação de um profissional de saúde qualificado pode ser extremamente importante.
A importância de não tratar apenas os números
Uma das críticas apresentadas pelo Dr Lair é a possibilidade de existir uma abordagem demasiado focada nos números. A glicemia é, naturalmente, um indicador fundamental. No entanto, não é o único elemento que deve ser analisado.
Duas pessoas podem apresentar valores semelhantes de glicose, mas ter condições metabólicas completamente diferentes.
É importante avaliar o contexto geral:
- Qual é o peso corporal?
- Existe gordura abdominal?
- Há resistência à insulina?
- Como é a alimentação?
- Qual é o nível de atividade física?
- Existem problemas de pressão arterial?
- Como estão os níveis de colesterol e triglicéridos?
- Existe doença renal?
- Existem complicações cardiovasculares?
- Que medicamentos estão a ser utilizados?
Uma abordagem completa pode ajudar a identificar os fatores que estão a contribuir para a progressão da doença.
A diabetes não é apenas uma questão de tomar um comprimido ou aplicar uma injeção. É uma condição que exige acompanhamento contínuo.
O papel da atividade física
A atividade física é outro dos pilares fundamentais para a saúde metabólica.
Os músculos utilizam glicose como fonte de energia. Quando uma pessoa pratica exercício físico, especialmente atividades que envolvem grandes grupos musculares, pode melhorar a utilização da glicose pelo organismo.
A atividade física regular pode contribuir para:
- melhorar a sensibilidade à insulina;
- ajudar a controlar o peso;
- aumentar a força muscular;
- melhorar a saúde cardiovascular;
- reduzir o sedentarismo;
- favorecer a autonomia ao longo do envelhecimento.
Não é necessário começar por atividades extremamente intensas. Para muitas pessoas, caminhar regularmente pode ser um excelente ponto de partida.
Com o tempo, podem ser acrescentados exercícios de resistência, sempre de acordo com a condição física e as limitações de cada pessoa.
O treino de força é particularmente importante à medida que envelhecemos, pois ajuda a preservar a massa muscular. A perda de músculo pode reduzir a capacidade do organismo de utilizar glicose e contribuir para a perda de autonomia.
Diabetes, envelhecimento e qualidade de vida
O aumento da esperança média de vida é uma das grandes conquistas da sociedade moderna. Contudo, viver mais anos não significa necessariamente viver com mais saúde.
O Dr. Lair Ribeiro chama a atenção para esta diferença. Uma pessoa pode atingir uma idade avançada, mas apresentar limitações significativas relacionadas com a mobilidade, a memória, a autonomia e as doenças crónicas.
A verdadeira longevidade deve estar associada à qualidade de vida.
No caso da diabetes, o controlo adequado da doença pode ajudar a reduzir o risco de complicações que afetam os olhos, os rins, os nervos e o sistema cardiovascular.
Quando a diabetes permanece descontrolada durante muitos anos, pode provocar danos progressivos no organismo. Entre as complicações possíveis estão problemas renais, alterações da sensibilidade, lesões nos pés, doenças cardiovasculares e problemas de visão.
É por isso que o diagnóstico precoce e o acompanhamento regular são tão importantes.
A importância de uma medicina mais individualizada
O Dr Lair defende a necessidade de modernizar a abordagem às doenças crónicas.
A medicina evoluiu enormemente e continua a produzir uma quantidade impressionante de investigação científica. No entanto, o conhecimento médico está sempre a mudar.
O que era considerado uma prática comum há algumas décadas pode ser posteriormente reavaliado à luz de novas evidências.
Esta evolução não significa que todos os tratamentos antigos sejam errados ou que todas as terapias novas sejam automaticamente melhores. Significa que a medicina deve continuar a questionar, estudar e procurar melhores resultados.
No caso da diabetes, uma abordagem individualizada pode ser mais eficaz do que aplicar exatamente o mesmo tratamento a todos os doentes.
Uma pessoa pode necessitar de insulina. Outra pode controlar a doença com alterações alimentares, exercício e medicamentos específicos. Outra pode precisar de uma combinação de várias estratégias.
O tratamento deve ser adaptado à realidade de cada paciente.
A insulina não deve ser demonizada
Apesar das críticas presentes no texto fornecido, é essencial evitar uma interpretação simplista.
A insulina não deve ser apresentada como um “veneno” ou como uma substância que deve ser evitada por todas as pessoas com diabetes.
Para pessoas com diabetes tipo 1, a insulina é indispensável. Sem ela, o organismo não consegue controlar adequadamente a glicose no sangue.
Em algumas pessoas com diabetes tipo 2, a insulina também pode ser necessária, especialmente quando o pâncreas já não consegue produzir quantidade suficiente ou quando a glicemia permanece elevada apesar de outras estratégias terapêuticas.
O verdadeiro debate deve estar centrado na utilização adequada da insulina, na avaliação dos seus benefícios e riscos e na procura de estratégias que possam melhorar a saúde metabólica global.
Nunca se deve interromper a insulina ou qualquer outro tratamento sem orientação médica.
O papel do médico e do próprio doente
O tratamento da diabetes deve ser uma parceria.
O médico possui o conhecimento técnico para avaliar a doença, interpretar exames e recomendar tratamentos. O doente, por sua vez, conhece a sua rotina, as suas dificuldades e os seus hábitos.
Uma comunicação aberta é essencial.
O paciente deve poder perguntar:
- Por que razão estou a tomar este medicamento?
- Qual é o objetivo deste tratamento?
- Existem alternativas?
- Que efeitos secundários devo conhecer?
- O que posso fazer através da alimentação?
- Que tipo de exercício é adequado para mim?
- Como posso melhorar a minha resistência à insulina?
- O meu peso está a influenciar a evolução da doença?
Estas perguntas podem ajudar a tornar o tratamento mais consciente.
A informação é importante, mas deve ser acompanhada por responsabilidade. Uma informação retirada de um vídeo, de um artigo ou de uma entrevista não deve substituir uma avaliação médica individual.
O que pode ser feito para melhorar a saúde metabólica?
Embora cada pessoa tenha necessidades diferentes, existem alguns princípios gerais que podem contribuir para uma melhor saúde metabólica.
O primeiro é reduzir o sedentarismo. Permanecer muitas horas sentado pode ter efeitos negativos mesmo quando a pessoa pratica exercício ocasionalmente.
Pequenas caminhadas ao longo do dia podem ser úteis.
O segundo é melhorar a alimentação. Não é necessário procurar soluções milagrosas. Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e aumentar a presença de alimentos naturais pode ser uma mudança importante.
O terceiro é cuidar do sono. Dormir mal pode afetar o apetite, o metabolismo e a regulação hormonal.
O quarto é controlar o stress. O stress crónico pode influenciar diversos mecanismos relacionados com o metabolismo.
O quinto é manter um acompanhamento regular. A diabetes pode evoluir ao longo do tempo e o tratamento pode necessitar de ajustes.
Conclusão
O Dr. Lair Ribeiro apresenta uma reflexão crítica sobre a forma como a diabetes e a obesidade são encaradas, destacando a importância da resistência à insulina, da alimentação e do estilo de vida.
A principal mensagem é que a diabetes não deve ser tratada apenas como um número elevado numa análise. É necessário compreender o organismo como um sistema complexo, no qual o peso, a alimentação, a atividade física, a produção de insulina e a sensibilidade das células estão profundamente relacionados.
A insulina pode ser essencial e salvar vidas, mas o tratamento da diabetes deve ser sempre individualizado. Não existe uma solução única para todos os pacientes.
Mais do que procurar uma “cura milagrosa”, é fundamental construir uma estratégia de saúde baseada em acompanhamento médico, alimentação equilibrada, exercício físico e conhecimento.
A prevenção e o controlo da diabetes começam muitas vezes com pequenas decisões repetidas diariamente. Uma caminhada, uma refeição mais equilibrada, a redução do consumo de açúcar, uma noite bem dormida ou uma consulta de acompanhamento podem parecer ações simples, mas, quando mantidas ao longo do tempo, podem ter um impacto significativo.
A grande lição do conteúdo apresentado é que a saúde metabólica exige uma visão mais ampla. A diabetes e a obesidade não são problemas isolados e, para melhorar os resultados, é necessário olhar para a pessoa como um todo.
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