Um festival de humor em Lisboa está envolvido numa polémica que tem levado vários artistas portugueses a cancelar a sua participação. A primeira edição do Commedia a La Carte Fest, que conta com Jerry Seinfeld como uma das principais figuras do cartaz, tem sido marcada por desistências e por críticas relacionadas com as posições públicas do comediante norte-americano sobre a guerra em Gaza.
O caso mais recente é o da atriz Inês Aires Pereira, que anunciou que o espectáculo Namastê deixará de fazer parte da programação do festival.
Numa publicação nas redes sociais, a atriz explicou a sua decisão sem mencionar diretamente Jerry Seinfeld, mas deixou uma mensagem clara sobre os motivos que a levaram a abandonar o evento.
Segundo Inês Aires Pereira, uma das personalidades associadas ao festival continua a defender ideias e atitudes que considera impossíveis de aceitar. A atriz acrescentou ainda que não se deve relativizar nem normalizar aquilo que classifica como um genocídio.
Embora não tenha identificado diretamente o alvo das suas críticas, a referência parece estar relacionada com Jerry Seinfeld, que tem manifestado publicamente o seu apoio a Israel desde o início da atual escalada do conflito no Médio Oriente.
Cebola Mol também abandona o festival
A decisão de Inês Aires Pereira surgiu depois de outros artistas portugueses terem igualmente anunciado que não vão participar no Commedia a La Carte Fest.
No mesmo dia, o duo humorístico Cebola Mol, formado por Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca, revelou que também decidiu abandonar o festival.
Numa mensagem divulgada nas redes sociais, os dois humoristas afirmaram que irão celebrar a justiça, a liberdade e a alegria com o público numa outra ocasião.
A publicação foi acompanhada por uma imagem com uma ilustração dos dois artistas e uma melancia, símbolo que se tornou amplamente associado à solidariedade com a causa palestiniana, sobretudo nas redes sociais.
Mais artistas já tinham cancelado a participação
As desistências começaram antes e envolveram vários nomes conhecidos do público português.
O espetáculo Tributo Pop, com Carolina Deslandes, Tatanka e Bárbara Tinoco, esteve entre os primeiros a abandonar o evento. O grupo Conjunto Cuca Monga também decidiu cancelar a sua participação.
Mais tarde, seguiram-se o humorista Pedro Tochas e o artista visual Vhils, nome artístico de Alexandre Farto.
Vhils explicou publicamente que o seu nome tinha sido incluído num dos cartazes do festival, mas que pediu para ser removido.
Numa publicação no Instagram, o artista esclareceu que, apesar de algumas pessoas continuarem a acreditar que faria parte do evento, não estará presente no MEO Commedia a La Carte Fest.
Alguns dos artistas que anunciaram a saída do festival não apresentaram uma explicação detalhada para a decisão, limitando-se a confirmar o cancelamento dos respectivos espetáculos ou participações.
Festival decorre entre 29 de Outubro e 1 de Novembro
A primeira edição do Lisbon International Humour Festival, Commedia a La Carte Fest, está marcada para decorrer entre os dias 29 de Outubro e 1 de Novembro.
No entanto, a polémica em torno do evento tem aumentado, especialmente nas redes sociais, onde se multiplicaram os apelos ao boicote e os pedidos para que mais artistas reconsiderem a sua participação.
Apesar das várias desistências, os organizadores mantêm, até ao momento, outros nomes anunciados no cartaz.
Entre os artistas que continuam associados ao festival encontram-se Herman José, Clarice Falcão, Matilde Breyner, bem como o grupo formado por César Mourão, Vasco Palmeirim, Pedro Ribeiro e Vera Fernandes.
Até agora, não existem indicações públicas de que estes participantes pretendam abandonar o evento ou que a organização esteja a reconsiderar a presença de Jerry Seinfeld.
As posições de Jerry Seinfeld estão no centro da controvérsia
A polémica está diretamente relacionada com as posições públicas assumidas por Jerry Seinfeld sobre Israel e sobre o conflito que se intensificou após os ataques de 7 de Outubro de 2023.
Ao longo de grande parte da sua carreira, Seinfeld manteve-se relativamente afastado de comentários sobre questões políticas. No entanto, nos últimos anos, o comediante tornou-se mais vocal relativamente ao seu apoio a Israel.
Jerry Seinfeld reuniu-se com familiares de pessoas sequestradas durante os ataques do Hamas e manifestou publicamente a sua solidariedade com Israel.
Esta mudança de postura tornou-se um dos aspectos mais debatidos da fase recente da carreira do humorista norte-americano.
As suas declarações sobre o conflito e o movimento de apoio à Palestina também provocaram fortes críticas.
Durante um evento realizado na Universidade Duke, na Carolina do Norte, Jerry Seinfeld fez comentários polémicos ao comparar o movimento Free Palestine com o Ku Klux Klan, uma organização historicamente associada ao supremacismo branco e ao racismo.
As declarações geraram uma forte reação e contribuíram para aumentar a controvérsia em torno da presença do comediante em eventos internacionais.
Um conflito que continua a dividir opiniões
A guerra entre Israel e o Hamas continua a provocar profundas divisões políticas e sociais em várias partes do mundo, incluindo no meio artístico e cultural.
Os ataques do Hamas em território israelita, ocorridos a 7 de Outubro de 2023, provocaram cerca de 1.200 mortes e levaram ao rapto de mais de duas centenas de pessoas.
A resposta militar israelita desencadeou uma escalada do conflito na Faixa de Gaza, com um número muito elevado de mortos e feridos.
Os números relacionados com as vítimas do conflito têm sido divulgados por diferentes entidades e permanecem sujeitos a actualizações e a diferentes interpretações, nomeadamente devido à dificuldade em distinguir entre vítimas civis e combatentes.
Polémica promete continuar
Com o aproximar da data do Commedia a La Carte Fest, é provável que a controvérsia continue a gerar discussão.
As sucessivas desistências de artistas portugueses transformaram aquilo que deveria ser um novo festival dedicado ao humor num dos eventos culturais mais polémicos do momento.
A presença de Jerry Seinfeld no cartaz está agora no centro do debate e os próximos dias poderão revelar se mais artistas decidem abandonar o evento ou se a organização mantém a programação prevista.
Uma coisa parece certa: antes mesmo de subir aos palcos, o festival já conseguiu tornar-se num dos assuntos mais discutidos nas redes sociais portuguesas.
