A tireoide é uma pequena glândula localizada na parte anterior do pescoço, com uma forma que lembra uma borboleta. Apesar das suas dimensões reduzidas, desempenha um papel fundamental no funcionamento do organismo, influenciando o metabolismo, a temperatura corporal, o crescimento, o funcionamento do coração e até o desenvolvimento do cérebro.
Problemas da tireoide são relativamente comuns e podem manifestar-se através de sintomas que, muitas vezes, são atribuídos simplesmente ao estresse, ao envelhecimento, à falta de sono ou a uma alimentação inadequada. Queda de cabelo, cansaço, aumento ou perda de peso, sensação de frio, alterações do ritmo cardíaco e dificuldades de concentração podem estar entre os sinais que justificam uma avaliação médica.
A tireoide: uma pequena glândula com uma grande função
A tireoide produz principalmente duas hormonas: a tiroxina, conhecida como T4, e a triiodotironina, conhecida como T3. Estas hormonas participam na regulação do metabolismo e têm influência sobre praticamente todos os órgãos.
A produção das hormonas tireoidianas é regulada através de um sistema complexo que envolve o hipotálamo, a hipófise e a própria tireoide. A hipófise produz a hormona estimulante da tireoide, conhecida pela sigla TSH.
De uma forma simplificada, quando a tireoide produz poucas hormonas, a hipófise tende a aumentar a produção de TSH para tentar estimular a glândula. É por isso que um TSH elevado pode ser compatível com hipotireoidismo primário, embora a interpretação dos resultados dependa do contexto clínico e dos níveis de T4 livre.
Por outro lado, um TSH baixo pode ocorrer no hipertireoidismo, situação em que existe produção excessiva de hormonas tireoidianas. Também aqui existem exceções e situações clínicas específicas que tornam a interpretação mais complexa.
Assim, não é correto analisar um resultado laboratorial de forma isolada.
Queda de cabelo pode estar relacionada com a tireoide?
A queda de cabelo é um dos sintomas que pode surgir em pessoas com alterações da função tireoidiana, embora esteja longe de ser exclusiva destas doenças.
No hipotireoidismo, a diminuição da atividade metabólica pode estar associada a alterações da pele e do cabelo. O cabelo pode tornar-se mais seco, quebradiço e fino, podendo ocorrer aumento da queda.
No entanto, existem muitas outras causas possíveis. Défices nutricionais, alterações hormonais, estresse, determinadas doenças, alguns medicamentos e problemas dermatológicos também podem provocar queda de cabelo.
Por isso, perante uma queda persistente ou significativa, não se deve concluir automaticamente que existe um problema na tireoide.
Em determinados casos, o médico pode considerar análises como TSH e T4 livre, além de outros exames que dependem dos sintomas e da história clínica.
Cansaço, frio e aumento de peso: sinais que merecem atenção
O hipotireoidismo pode provocar sintomas bastante inespecíficos. Entre eles encontram-se:
- cansaço persistente;
- sensação de frio;
- pele seca;
- obstipação;
- aumento de peso;
- sonolência;
- alterações do humor;
- dificuldade de concentração;
- redução da frequência cardíaca;
- fraqueza muscular;
- alterações menstruais;
- cabelo seco ou queda de cabelo.
É importante perceber, contudo, que nenhum destes sintomas, isoladamente, permite diagnosticar hipotireoidismo.
Uma pessoa cansada pode ter dezenas de explicações possíveis para esse sintoma. O mesmo acontece com o aumento de peso ou a queda de cabelo.
É precisamente por isso que a avaliação médica é importante: os sintomas devem ser analisados em conjunto com o exame físico e, quando necessário, com análises laboratoriais.
O que significam TSH, T3 e T4?
Uma das ideias abordadas pelo Lair Ribeiro é a importância de compreender as hormonas tireoidianas.
O T4, ou tiroxina, é produzido principalmente pela tireoide e funciona como uma espécie de hormona de reserva. Parte do T4 é posteriormente convertida em T3, uma hormona biologicamente mais ativa.
O TSH, apesar de não ser produzido pela tireoide, é fundamental para avaliar a função desta glândula.
Em termos gerais:
TSH elevado + T4 livre baixo: pode indicar hipotireoidismo primário.
TSH elevado + T4 livre normal: pode ser compatível com hipotireoidismo subclínico.
TSH baixo + T4 livre e/ou T3 elevados: pode apontar para hipertireoidismo.
Contudo, existem situações particulares, como doenças da hipófise, determinados medicamentos, gravidez e outras condições clínicas, que podem alterar esta interpretação.
Por isso, a leitura das análises deve ser feita por um profissional de saúde e não através de uma regra simples aplicada a todas as pessoas.
E quando os exames estão normais?
O exemplo de uma mulher chamada Maria apresentado pelo Dr Lair é particularmente interessante. Maria apresenta vários sintomas compatíveis com hipotireoidismo, mas tem valores de TSH e T4 livre considerados normais.
Este cenário levanta uma questão importante: é possível ter sintomas e, simultaneamente, apresentar análises tireoidianas normais?
Sim. Mas isso não significa necessariamente que exista uma doença da tireoide escondida.
Os sintomas associados ao hipotireoidismo são muito comuns na população em geral e podem ter inúmeras causas. Quando os exames demonstram função tireoidiana normal, é necessário considerar outras possibilidades antes de atribuir todos os sintomas à tireoide.
Além disso, aumentar ou iniciar hormonas tireoidianas apenas porque uma pessoa apresenta sintomas, sem uma indicação clínica adequada, pode ser perigoso.
O tratamento com hormona tireoidiana deve ser individualizado e acompanhado por um profissional de saúde.
A doença de Graves e o hipertireoidismo
A doença de Graves é uma doença autoimune que pode provocar hipertireoidismo. Neste caso, o sistema imunitário produz anticorpos que estimulam o recetor da TSH, levando a tireoide a produzir hormonas em excesso.
Entre os sintomas de hipertireoidismo podem surgir:
- palpitações;
- perda de peso;
- ansiedade;
- tremores;
- intolerância ao calor;
- transpiração excessiva;
- insónia;
- fraqueza muscular;
- aumento da frequência cardíaca.
A avaliação pode incluir TSH, T4 livre, T3 e, dependendo da situação, anticorpos específicos.
O tratamento da doença de Graves pode envolver medicamentos antitireoidianos, iodo radioativo ou cirurgia, dependendo das características da doença e da situação individual.
Não existe uma solução única adequada para todos os doentes.
Para que servem os anticorpos da tireoide?
Os anticorpos antitireoidianos são particularmente importantes quando existe suspeita de doença autoimune da tireoide.
Entre os exames que podem ser utilizados encontram-se os anticorpos antiperoxidase da tireoide, conhecidos como anti-TPO, os anticorpos antitiroglobulina e os anticorpos dirigidos contra o recetor da TSH, incluindo TRAb e TSI.
Estes exames podem ajudar a identificar doenças como a tireoidite de Hashimoto e a doença de Graves.
Contudo, ter anticorpos positivos não significa automaticamente que seja necessário iniciar tratamento. O resultado deve ser interpretado em conjunto com os sintomas, a função tireoidiana e o restante quadro clínico.
O exercício pode revelar se o problema é a tireoide?
O Dr. Lair apresenta uma distinção entre fadiga relacionada com a tireoide e fadiga relacionada com as glândulas suprarrenais, sugerindo que a resposta ao exercício poderia ajudar a distinguir os dois problemas.
Esta é uma afirmação que deve ser encarada com cautela.
Não é possível diagnosticar uma doença da tireoide ou uma doença das glândulas suprarrenais simplesmente perguntando se uma pessoa se sente melhor ou pior depois de fazer exercício.
A resposta ao exercício pode variar significativamente de acordo com o nível de condição física, sono, alimentação, stress, doenças, medicação e muitos outros fatores.
Se uma pessoa apresenta fadiga persistente, especialmente quando interfere com a vida quotidiana, deve procurar avaliação médica em vez de tentar fazer um autodiagnóstico através da resposta ao exercício.
A importância do iodo para a tireoide
O iodo é um micronutriente essencial para a produção das hormonas tireoidianas. Sem uma quantidade adequada de iodo, o organismo não consegue produzir normalmente T4 e T3.
As entidades competentes destacam igualmente a importância do iodo para o funcionamento da tireoide e para o desenvolvimento cerebral, especialmente durante a gravidez e a infância.
Existem dados que mostram preocupação com a ingestão insuficiente de iodo em determinados grupos da população.
Isto demonstra que a questão do iodo é real e merece atenção.
Mas existe uma diferença fundamental entre corrigir uma deficiência de iodo e consumir doses elevadas de iodo sem indicação.
Mais iodo não significa necessariamente uma tireoide mais saudável
Esta é uma das principais questões que devem ser esclarecidas quando se fala sobre o tema.
O iodo é essencial, mas isso não significa que quanto maior for o consumo, melhor será a função da tireoide.
Segundo o National Institutes of Health, a dose diária recomendada para adultos é de aproximadamente 150 microgramas de iodo. Durante a gravidez, a recomendação aumenta para 220 microgramas e, durante a amamentação, para 290 microgramas.
Por outro lado, existe um limite máximo tolerável de 1.100 microgramas por dia para adultos, considerando a ingestão total proveniente de alimentos e suplementos.
A American Thyroid Association alerta igualmente para os riscos de doses elevadas de iodo e de suplementos de algas que fornecem quantidades muito superiores às necessidades diárias.
Ou seja, a ideia de que todas as pessoas com problemas de tireoide deveriam simplesmente aumentar significativamente o consumo de iodo não é suportada pelas recomendações médicas atuais.
A deficiência de iodo durante a gravidez merece especial atenção
Durante a gravidez, o iodo assume uma importância particularmente grande.
As hormonas tireoidianas são fundamentais para o desenvolvimento do sistema nervoso do bebé. Por isso, uma ingestão inadequada de iodo durante a gravidez pode ter consequências importantes.
A suplementação durante a gravidez deve ser enquadrada no acompanhamento médico.
Iodo, iodeto e suplementos: não é tudo a mesma coisa
OLair Ribeiro também faz uma distinção entre iodo e iodeto.
Quimicamente, o iodo pode existir sob diferentes formas, e a forma utilizada nos suplementos e medicamentos é relevante para a sua absorção e utilização pelo organismo.
O iodeto de potássio, por exemplo, é uma das formas utilizadas em recomendações de suplementação.
Isto não significa, contudo, que seja seguro experimentar diferentes formas de iodo ou iodeto por iniciativa própria.
A dose e a indicação são fundamentais.
Um suplemento não deve ser considerado automaticamente seguro apenas porque contém um nutriente essencial.
Algas: cuidado com o excesso de iodo
As algas podem conter quantidades muito elevadas e bastante variáveis de iodo.
Este é um detalhe importante porque algumas pessoas recorrem a algas ou suplementos de algas precisamente por acreditarem que estão a melhorar a saúde da tireoide.
Na realidade, determinadas algas podem fornecer quantidades de iodo muito superiores às necessidades diárias.
O excesso de iodo pode provocar alterações da função tireoidiana. A American Thyroid Association salienta que doses excessivas podem causar ou agravar problemas da tireoide, incluindo hipotireoidismo e hipertireoidismo em pessoas suscetíveis.
Portanto, mais uma vez, a palavra-chave é equilíbrio.
A temperatura corporal é um teste à tireoide?
Embora as hormonas tireoidianas influenciem a produção de calor e a regulação da temperatura corporal, não é correto utilizar uma temperatura corporal isolada como método fiável para diagnosticar hipotireoidismo.
A temperatura varia naturalmente ao longo do dia e pode ser influenciada pelo ambiente, atividade física, infeções, ciclo menstrual, idade, método de medição e muitos outros fatores.
Para avaliar a função tireoidiana, os exames laboratoriais apropriados continuam a ser muito mais relevantes do que tentar estabelecer um diagnóstico através da temperatura medida em casa.
O iodo não é um tratamento universal
O Dr. Lair Ribeiro destaca diversas propriedades do iodo e descreve-o como um nutriente com múltiplas funções.
É verdade que o iodo é essencial e que algumas das suas utilizações médicas são bem estabelecidas. O iodo também tem aplicações como antisséptico e determinadas formas radioativas de iodo são utilizadas em situações médicas específicas.
Mas isso não significa que o iodo possa ser considerado um tratamento universal para doenças muito diferentes.
Por exemplo, a utilização de iodo radioativo no tratamento de determinadas doenças da tireoide é completamente diferente da ingestão de suplementos de iodo.
Da mesma forma, o facto de um nutriente ser necessário para o organismo não significa que doses farmacológicas sejam automaticamente benéficas.
O que fazer perante sintomas de problemas da tireoide?
Se existem sintomas como queda de cabelo, cansaço persistente, aumento inexplicável de peso, sensação de frio, palpitações ou alterações importantes do humor, o melhor caminho não é começar imediatamente a tomar suplementos.
O primeiro passo deve ser procurar avaliação médica.
Dependendo da situação, o médico poderá solicitar análises como TSH e T4 livre e, se existir indicação, outros exames, incluindo anticorpos tireoidianos.
Também pode ser necessário investigar outras causas para os sintomas.
Por exemplo, uma pessoa com queda de cabelo pode apresentar deficiência de ferro, alterações hormonais ou problemas dermatológicos. Uma pessoa cansada pode ter problemas relacionados com o sono, anemia, estresse, infeções, medicamentos ou diversas outras condições.
A tireoide é apenas uma das possibilidades.
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O que devemos retirar desta discussão?
O Dr. Lair Ribeiro chama a atenção para uma questão importante: a tireoide tem uma influência enorme no organismo e os seus problemas podem manifestar-se através de sintomas aparentemente banais.
Também está correto destacar a importância do iodo. A deficiência deste mineral continua a ser uma preocupação em determinadas populações e é particularmente importante durante a gravidez.
No entanto, algumas das afirmações apresentadas devem ser vistas com prudência.
Não é correto assumir que toda a queda de cabelo é provocada pelo hipotireoidismo, que uma determinada temperatura corporal permite diagnosticar problemas da tireoide ou que uma pessoa cansada pode distinguir uma doença tireoidiana de uma doença suprarrenal apenas pela resposta ao exercício.
Da mesma forma, o iodo é indispensável, mas não deve ser encarado como uma solução universal. O excesso pode ser prejudicial, sobretudo em pessoas que já apresentam determinadas doenças da tireoide.
A melhor abordagem passa por identificar uma eventual deficiência, avaliar corretamente a função tireoidiana e utilizar suplementos ou medicamentos apenas quando existe indicação adequada.
Conclusão
A tireoide pode ser pequena, mas tem uma importância enorme para o organismo. As suas hormonas participam na regulação do metabolismo, da temperatura corporal, do crescimento e de numerosas funções fisiológicas.
Sintomas como queda de cabelo, cansaço, aumento de peso e intolerância ao frio podem justificar uma avaliação da função tireoidiana, sobretudo quando são persistentes e aparecem em conjunto. Contudo, estes sintomas não são suficientes para estabelecer um diagnóstico.
O iodo é igualmente fundamental. É um componente indispensável das hormonas tireoidianas e assume uma importância ainda maior durante a gravidez e o desenvolvimento infantil.
Ao mesmo tempo, é fundamental evitar outro erro: pensar que uma maior quantidade de iodo significa automaticamente uma melhor tireoide. A evidência atual mostra que tanto a deficiência como o excesso podem causar problemas.
Por isso, antes de iniciar suplementos de iodo, alterar a medicação da tireoide ou tentar tratar sintomas através de métodos caseiros, é aconselhável falar com um médico ou outro profissional de saúde qualificado.
Nota importante: este artigo tem finalidade exclusivamente informativa. Não substitui uma consulta médica, diagnóstico ou tratamento individualizado. Pessoas que estejam a tomar medicação para a tireoide não devem alterar a dose ou interromper o tratamento sem indicação do profissional de saúde que acompanha o caso. A American Thyroid Association também recomenda discutir com o médico quaisquer suplementos ou alterações alimentares destinados a influenciar a doença tireoidiana.
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