Durante muitos anos, a mensagem foi praticamente unânime: quanto mais baixa estiver a pressão arterial, melhor. O famoso valor de 120/80 mmHg passou a ser visto como o objetivo ideal para praticamente todas as pessoas, independentemente da idade.
No entanto, segundo o Dr. Lair Ribeiro, esta visão pode não ser adequada para todos, especialmente para quem tem mais de 65 anos. De acordo com a sua interpretação de diversos estudos científicos, perseguir valores demasiado baixos em idosos pode aumentar o risco de quedas, tonturas, perda de autonomia e até de hospitalizações.
É importante, contudo, fazer uma distinção essencial. As recomendações oficiais das principais sociedades científicas continuam a defender o controlo rigoroso da hipertensão, mas também reconhecem que, em pessoas idosas, particularmente nas mais frágeis, os objetivos terapêuticos devem ser individualizados. Ou seja, não existe um único número ideal para todos.
Neste artigo vamos analisar as ideias apresentadas pelo Dr. Lair Ribeiro, explicar como a pressão arterial muda com o envelhecimento, compreender o que é a hipotensão ortostática, conhecer os riscos do excesso de medicação e perceber porque motivo a avaliação clínica personalizada continua a ser indispensável.
Porque é que a pressão arterial muda com a idade?
À medida que envelhecemos, o sistema cardiovascular sofre alterações naturais.
Entre as principais mudanças encontram-se:
- maior rigidez das artérias;
- menor elasticidade dos vasos sanguíneos;
- resposta mais lenta do organismo às alterações da posição do corpo;
- menor capacidade de adaptação da circulação.
Estas alterações fazem com que uma pressão arterial considerada “normal” num adulto jovem nem sempre seja a mais adequada para uma pessoa com 75 ou 80 anos.
Segundo o Dr. Lair Ribeiro, um dos maiores erros consiste precisamente em aplicar aos idosos os mesmos objetivos utilizados para adultos de meia-idade.
O mito do 120 por 80 para todas as idades
Durante décadas, o valor de 120/80 mmHg foi apresentado como a referência universal.
Embora seja um excelente valor para muitos adultos saudáveis, a realidade clínica dos idosos é mais complexa.
O Dr. Lair Ribeiro defende que, em muitos casos, baixar excessivamente a pressão arterial pode reduzir o fluxo de sangue para órgãos fundamentais, especialmente o cérebro.
Na prática, isto poderá traduzir-se em sintomas como:
- tonturas;
- visão turva ao levantar;
- sensação de fraqueza;
- perda de equilíbrio;
- confusão mental;
- fadiga constante.
Importa referir que as orientações internacionais atuais também reconhecem que, em idosos frágeis ou com múltiplas doenças, os objetivos da pressão arterial devem ser adaptados ao estado clínico de cada pessoa.
A importância do fluxo sanguíneo cerebral
O cérebro necessita de um fornecimento constante de oxigénio e nutrientes.
Quando a pressão arterial baixa demasiado, sobretudo em pessoas com artérias mais rígidas, pode existir uma diminuição da perfusão cerebral.
Segundo o Dr. Lair Ribeiro, esta situação pode contribuir para sintomas frequentemente atribuídos apenas ao envelhecimento, como:
- falta de concentração;
- dificuldades de memória;
- sonolência excessiva;
- diminuição da energia;
- lentidão mental.
É importante esclarecer que estes sintomas podem ter muitas outras causas, incluindo doenças neurológicas, alterações metabólicas, défices vitamínicos ou efeitos secundários de medicamentos. Por isso, qualquer alteração deve ser avaliada por um médico.
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O que é a hipotensão ortostática?
Um dos pontos mais enfatizados pelo Dr. Lair Ribeiro é a chamada hipotensão ortostática.
Trata-se de uma descida significativa da pressão arterial quando a pessoa passa da posição deitada ou sentada para a posição de pé.
O organismo normalmente reage rapidamente para manter o sangue a chegar ao cérebro.
No entanto, com o envelhecimento:
- essa resposta torna-se mais lenta;
- os recetores de pressão perdem sensibilidade;
- o risco de queda aumenta.
Os sintomas incluem:
- tonturas ao levantar;
- escurecimento da visão;
- sensação de desmaio;
- desequilíbrio;
- síncope.
Este problema é relativamente frequente na população idosa e merece sempre avaliação médica.
Porque razão as quedas são tão perigosas?
Uma queda pode parecer um simples acidente.
Contudo, nas pessoas mais velhas, as consequências podem ser extremamente graves.
Entre elas destacam-se:
- fraturas do colo do fémur;
- internamentos prolongados;
- perda de mobilidade;
- perda de autonomia;
- infeções hospitalares;
- necessidade de institucionalização.
É precisamente por isso que muitos geriatras consideram a prevenção das quedas uma das maiores prioridades da medicina do envelhecimento.
O excesso de medicação pode ser um problema?
O Dr. Lair Ribeiro alerta para um fenómeno conhecido como sobremedicação.
Em alguns idosos, o tratamento da hipertensão pode tornar-se demasiado agressivo.
Como consequência, podem surgir:
- pressão arterial excessivamente baixa;
- tonturas frequentes;
- quedas repetidas;
- fadiga constante;
- diminuição da qualidade de vida.
Isto não significa que os medicamentos para a hipertensão sejam maus.
Pelo contrário.
Eles salvam milhões de vidas todos os anos.
O problema surge quando a dose deixa de ser adequada às necessidades individuais do doente.
Por essa razão, qualquer alteração da medicação deve ser feita exclusivamente pelo médico assistente.
Como medir corretamente a pressão arterial em casa
Uma das recomendações mais úteis apresentadas pelo Dr. Lair Ribeiro consiste em monitorizar a pressão arterial em casa.
O procedimento é relativamente simples.
Primeiro:
- descansar sentado ou deitado durante cerca de cinco minutos.
Depois:
- medir a pressão arterial e registar os valores.
Em seguida:
- levantar-se cuidadosamente;
- repetir a medição logo após ficar de pé.
Por fim:
- permanecer de pé durante três minutos;
- realizar uma terceira medição.
Se existir uma queda significativa da pressão ao levantar, especialmente acompanhada por sintomas, deve informar o médico.
Este teste nunca substitui uma avaliação clínica, mas pode fornecer informações importantes.
Quais os sinais de alerta que merecem atenção?
Segundo o Dr. Lair Ribeiro, algumas pessoas atribuem automaticamente determinados sintomas à idade.
No entanto, estes sinais podem justificar investigação médica:
- tonturas frequentes;
- quedas sem explicação;
- dificuldade de concentração;
- sensação de desmaio;
- cansaço extremo;
- memória pior do que o habitual;
- visão escurecida ao levantar.
Sempre que estes sintomas aparecem após alterações da medicação para a hipertensão, é ainda mais importante falar com o médico.
Existem novos valores ideais para os idosos?
O Dr. Lair Ribeiro cita estudos que sugerem que muitos idosos poderão beneficiar de objetivos de pressão arterial menos agressivos.
No entanto, é importante esclarecer que não existe consenso absoluto.
As principais sociedades científicas defendem atualmente que:
- idosos ativos e saudáveis podem beneficiar de um controlo relativamente rigoroso da pressão arterial;
- idosos muito frágeis necessitam frequentemente de metas individualizadas;
- a decisão deve considerar idade, doenças associadas, risco de queda, função cognitiva e qualidade de vida.
Ou seja, não existe um único número perfeito.
Existe sim um equilíbrio entre reduzir o risco cardiovascular e evitar os efeitos negativos de uma pressão demasiado baixa.
A importância da hidratação
Outro fator frequentemente negligenciado é a hidratação.
A desidratação pode provocar:
- diminuição da pressão arterial;
- agravamento das tonturas;
- maior risco de queda;
- pior funcionamento dos rins.
Muitas pessoas idosas têm menor sensação de sede.
Por isso, é importante manter uma ingestão adequada de líquidos, salvo contraindicação médica.
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Alimentação e pressão arterial
O Dr. Lair Ribeiro lembra igualmente que a alimentação continua a desempenhar um papel fundamental.
Uma dieta equilibrada pode ajudar a controlar naturalmente a pressão arterial.
Entre os alimentos habitualmente recomendados encontram-se:
- fruta fresca;
- legumes;
- vegetais;
- leguminosas;
- cereais integrais;
- frutos secos em quantidade moderada;
- azeite;
- peixe.
Ao mesmo tempo, é aconselhável reduzir:
- excesso de sal;
- alimentos ultraprocessados;
- bebidas açucaradas;
- consumo excessivo de álcool.
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Exercício físico continua a ser essencial
Independentemente da idade, manter atividade física regular continua a ser uma das melhores estratégias para preservar a saúde cardiovascular.
Entre os exercícios mais indicados para idosos encontram-se:
- caminhada;
- hidroginástica;
- bicicleta estática;
- exercícios de força supervisionados;
- treino de equilíbrio;
- alongamentos.
Além de melhorar a circulação, o exercício ajuda também a reduzir o risco de quedas.
O papel do sono
Dormir bem influencia diretamente:
- a pressão arterial;
- o metabolismo;
- o funcionamento cerebral;
- a memória;
- o sistema imunitário.
A privação crónica de sono pode dificultar o controlo da hipertensão e aumentar o risco cardiovascular.
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Nunca altere a medicação por iniciativa própria
Este talvez seja o ponto mais importante de todo o artigo.
Embora o Dr. Lair Ribeiro questione algumas abordagens demasiado agressivas no tratamento da hipertensão em idosos, isso não significa que os medicamentos devam ser interrompidos.
Suspender ou reduzir anti-hipertensores sem acompanhamento médico pode provocar:
- aumento acentuado da pressão arterial;
- AVC;
- enfarte do miocárdio;
- insuficiência cardíaca;
- outras complicações graves.
Qualquer alteração deve ser cuidadosamente planeada pelo médico responsável.
Como preparar a próxima consulta
Uma excelente estratégia consiste em levar informação organizada para a consulta.
Durante duas semanas, registe:
- pressão arterial de manhã;
- pressão arterial à noite;
- frequência cardíaca;
- episódios de tonturas;
- quedas;
- sensação de desmaio;
- alterações da memória;
- fadiga.
Este diário pode ajudar o médico a decidir se a medicação necessita de ajustes.
O verdadeiro objetivo do tratamento
Segundo a filosofia apresentada pelo Dr. Lair Ribeiro, o objetivo principal não deve ser apenas atingir um determinado número no tensiómetro.
O foco deve estar em preservar:
- a autonomia;
- a mobilidade;
- a função cerebral;
- a qualidade de vida;
- a independência.
Na prática clínica moderna, muitos especialistas partilham esta visão global, defendendo que o tratamento deve ser adaptado à pessoa e não apenas aos valores laboratoriais.
Conclusão
O Dr. Lair Ribeiro levanta uma reflexão importante sobre o tratamento da hipertensão na população idosa: será que perseguir valores cada vez mais baixos é sempre a melhor estratégia?
A resposta, segundo a evidência científica mais recente, é que depende do contexto clínico. Embora controlar a hipertensão continue a ser essencial para reduzir o risco de enfarte, AVC e outras complicações cardiovasculares, também é verdade que uma pressão arterial excessivamente baixa pode aumentar o risco de tonturas, quedas e perda de autonomia em alguns idosos.
A mensagem mais importante não é abandonar o tratamento nem ignorar a hipertensão. É compreender que, após os 65 ou 75 anos, o controlo da pressão arterial deve ser individualizado, tendo em conta a idade, a fragilidade, os sintomas, a função cognitiva e o risco de queda.
Se tem mais de 65 anos, mede regularmente a sua pressão arterial e toma medicação para a hipertensão, vale a pena conversar com o seu médico sobre os seus objetivos terapêuticos. Leve um registo das medições feitas em casa, descreva eventuais episódios de tonturas ou quedas e peça uma avaliação global da sua situação.
No final, o tratamento ideal não é aquele que produz o número mais baixo no aparelho de medição, mas sim aquele que permite viver mais tempo, com mais segurança, autonomia e qualidade de vida.
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