Durante muitos anos, o chiclete sem açúcar foi promovido como uma alternativa saudável para quem queria reduzir o consumo de açúcar, controlar o peso ou simplesmente manter o hálito fresco. No entanto, segundo o médico e nutrólogo brasileiro Dr. Lair Ribeiro, este hábito aparentemente inofensivo pode ter consequências metabólicas que poucas pessoas conhecem.
Em uma entrevista, o Dr. Lair Ribeiro abordou temas que geram bastante discussão, como o impacto do chiclete sem açúcar na produção de insulina, a resistência à insulina, o colesterol, as estatinas e a forma como os estudos científicos são apresentados ao público.
Neste artigo, analisamos as principais ideias defendidas pelo médico e explicamos o que diz a evidência científica atual, para que possa compreender melhor este tema e tirar as suas próprias conclusões.
O chiclete sem açúcar é realmente inofensivo?
Para muitas pessoas, mascar chiclete sem açúcar parece uma escolha inteligente. Não contém sacarose, tem poucas ou nenhumas calorias e ajuda a reduzir a vontade de comer doces.
No entanto, segundo Lair Ribeiro, existe um mecanismo fisiológico que pode explicar porque razão o consumo frequente de chiclete poderá não ser totalmente inofensivo.
O médico afirma que o simples sabor doce pode desencadear uma resposta antecipada do organismo, preparando-o para receber açúcar, mesmo quando este nunca chega ao sistema digestivo.
A fase cefálica da digestão
Para compreender esta teoria, é necessário perceber como funciona a chamada fase cefálica da digestão.
O processo digestivo não começa quando os alimentos chegam ao estômago.
Na realidade, inicia-se muito antes.
Quando vemos comida, sentimos o seu aroma ou antecipamos uma refeição, o cérebro começa imediatamente a preparar o organismo para a digestão.
É por isso que muitas pessoas começam a salivar ao sentir o cheiro de pão acabado de cozer ou de um prato favorito.
Segundo Lair Ribeiro, este mecanismo também acontece quando sentimos o sabor doce.
O papel das papilas gustativas
Na língua existem milhares de papilas gustativas responsáveis por identificar diferentes sabores:
- Doce
- Salgado
- Amargo
- Ácido
- Umami
Quando um alimento doce entra na boca, estas papilas enviam imediatamente um sinal ao cérebro.
O cérebro interpreta essa informação como um aviso de que açúcar está prestes a entrar no organismo.
Em resposta, envia sinais para o pâncreas começar a preparar a produção de insulina.
Este fenómeno é conhecido como resposta insulinémica da fase cefálica e está descrito em vários estudos científicos, embora a intensidade da resposta varie bastante entre indivíduos e conforme o alimento consumido.
O que acontece quando se masca chiclete sem açúcar?
Segundo o dr. Lair Ribeiro, quando uma pessoa passa várias horas por dia a mascar chiclete sem açúcar, poderá estar a estimular repetidamente esta resposta antecipada da insulina.
Na sua interpretação:
- o cérebro espera a chegada de glicose;
- o pâncreas prepara-se para produzir insulina;
- mas o açúcar nunca chega.
Ao repetir este processo várias vezes por dia, o médico considera que poderá existir um estímulo desnecessário da produção de insulina.
É precisamente aqui que surge uma das suas principais preocupações.
A possível ligação com a resistência à insulina
Lair Ribeiro defende que esta estimulação repetida da insulina poderá contribuir para o desenvolvimento da resistência à insulina.
A resistência à insulina ocorre quando as células deixam de responder adequadamente a esta hormona.
Como consequência:
- o organismo necessita de produzir cada vez mais insulina;
- aumenta o risco de pré-diabetes;
- pode surgir diabetes tipo 2;
- aumenta a facilidade em acumular gordura corporal.
É importante referir que, embora exista evidência de que sabores doces podem desencadear uma pequena resposta insulinémica antecipatória, os estudos científicos disponíveis ainda não demonstram de forma consistente que mascar chiclete sem açúcar, por si só, provoque resistência à insulina ou diabetes. A alimentação global, o excesso de peso, o sedentarismo e a predisposição genética continuam a ser os principais fatores de risco.
Porque é que o cérebro “espera” açúcar?
O organismo humano evoluiu durante milhares de anos num ambiente onde o sabor doce significava praticamente sempre a presença de energia.
Sempre que o cérebro identifica esse sabor, prepara automaticamente todo o sistema digestivo.
Este mecanismo tinha uma enorme vantagem evolutiva:
- acelerar a digestão;
- melhorar a absorção dos nutrientes;
- preparar o metabolismo para a chegada dos hidratos de carbono.
Os adoçantes modernos criam uma situação diferente: existe sabor doce, mas praticamente nenhuma glicose disponível.
É precisamente este “desencontro” que está na base da hipótese apresentada pelo dr. Lair.
O consumo de adoçantes continua a ser um tema em estudo
Os adoçantes artificiais e naturais continuam a ser alvo de investigação.
Alguns estudos sugerem que determinados adoçantes podem alterar:
- a microbiota intestinal;
- a perceção do sabor doce;
- a resposta glicémica em algumas pessoas.
Outros trabalhos científicos mostram benefícios, sobretudo quando substituem o açúcar em pessoas com diabetes ou excesso de peso.
Ou seja, não existe consenso absoluto.
Por esse motivo, muitos especialistas defendem uma abordagem equilibrada: reduzir tanto o açúcar como a dependência excessiva do sabor doce, independentemente da sua origem.
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A visão de Lair Ribeiro sobre o colesterol
Outro tema abordado na entrevista é o colesterol.
Segundo Lair Ribeiro, durante décadas criou-se a ideia de que o colesterol seria o principal responsável pelas doenças cardiovasculares.
Na sua opinião, esta interpretação simplifica demasiado um problema muito mais complexo.
Porque o colesterol é importante para o organismo
Independentemente da discussão sobre os níveis ideais, existe consenso científico de que o colesterol desempenha funções fundamentais no organismo.
Entre elas destacam-se:
- construção das membranas celulares;
- produção de hormonas esteroides;
- síntese da vitamina D;
- formação dos ácidos biliares;
- funcionamento adequado do cérebro.
Cerca de um quarto do colesterol do corpo encontra-se no sistema nervoso central, sendo essencial para a comunicação entre neurónios.
O colesterol “bom” e “mau”
Lair Ribeiro critica igualmente a divisão simplificada entre colesterol bom e colesterol mau.
Na realidade, HDL e LDL não são tipos diferentes de colesterol.
O colesterol é exatamente o mesmo.
O que muda é a lipoproteína responsável pelo seu transporte.
- O LDL transporta colesterol do fígado para os tecidos.
- O HDL faz o transporte inverso, levando colesterol dos tecidos novamente para o fígado.
Além disso, atualmente sabe-se que existem diferentes subclasses de partículas LDL, algumas potencialmente mais aterogénicas do que outras.
Esta é uma área em constante evolução na investigação cardiovascular.
A opinião sobre as estatinas
Um dos pontos mais polémicos da entrevista é a posição de Lair Ribeiro relativamente às estatinas.
Segundo o médico, os benefícios destes medicamentos seriam limitados quando comparados com os seus potenciais efeitos secundários.
Esta é uma opinião controversa e não representa o consenso das principais sociedades científicas. Atualmente, as estatinas continuam a ser recomendadas em muitos doentes com elevado risco cardiovascular ou com doença cardiovascular estabelecida, após avaliação médica individual.
Como interpretar os resultados dos estudos científicos
Um dos exemplos apresentados por Lair Ribeiro diz respeito à diferença entre risco absoluto e risco relativo.
Segundo ele, muitas notícias destacam apenas reduções relativas, que parecem muito mais impressionantes.
O exemplo utilizado é simples.
Imagine um estudo com 100 pessoas em cada grupo.
- Grupo sem tratamento: morrem 2 pessoas.
- Grupo tratado: morre 1 pessoa.
Em termos absolutos:
- o risco diminuiu de 2% para 1%;
- houve uma redução absoluta de 1 ponto percentual.
Em termos relativos:
- a redução corresponde a 50%.
Ambas as formas de apresentar os resultados estão matematicamente corretas, mas podem transmitir perceções muito diferentes ao público. Por isso, conhecer tanto o risco absoluto como o risco relativo ajuda a interpretar melhor os benefícios reais de um tratamento.
A importância da prevenção
Apesar das críticas a alguns medicamentos, Lair Ribeiro reforça que a prevenção continua a ser o caminho mais eficaz.
Na sua perspetiva, hábitos diários consistentes têm muito mais impacto na saúde do que depender apenas de medicamentos.
Entre as recomendações destacam-se:
- controlar o consumo de açúcar;
- evitar alimentos ultraprocessados;
- praticar exercício físico regularmente;
- dormir bem;
- reduzir o stress;
- manter um peso saudável.
São estratégias amplamente reconhecidas como importantes para reduzir o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.
Aspirina: quando pode fazer sentido?
No final da entrevista, Lair Ribeiro fala também sobre a aspirina em baixa dose.
Segundo o médico, a aspirina pode reduzir a agregação das plaquetas e, em determinadas situações clínicas, trazer benefícios cardiovasculares.
Contudo, salienta que deve ser utilizada na dose adequada e, idealmente, em formulações gastro-resistentes para reduzir o risco de irritação gástrica.
Atualmente, a utilização diária de aspirina não é recomendada para todas as pessoas. A decisão deve ser tomada em conjunto com o médico, ponderando cuidadosamente os benefícios e os riscos, nomeadamente o aumento do risco de hemorragias.
Conclusão
A entrevista de Lair Ribeiro aborda diversos temas que continuam a gerar debate na medicina moderna, desde o impacto do chiclete sem açúcar na produção de insulina até ao papel do colesterol, das estatinas e da interpretação dos estudos científicos.
Embora algumas das suas ideias coincidam com conhecimentos estabelecidos — como a existência da fase cefálica da digestão ou a importância do colesterol para o organismo — outras, como a afirmação de que mascar chiclete sem açúcar pode levar à diabetes ou a desvalorização do papel das estatinas, não refletem o consenso científico atual e devem ser interpretadas com prudência.
A principal mensagem prática continua a ser válida: uma alimentação equilibrada, atividade física regular, sono de qualidade e acompanhamento médico individualizado são os pilares fundamentais para proteger a saúde metabólica e cardiovascular. Antes de alterar medicamentos ou adotar mudanças significativas no estilo de vida com base em opiniões divulgadas na Internet, é sempre aconselhável discutir essas decisões com um profissional de saúde qualificado.
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