Dilemas do Brasil rural

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Parei em um posto de gasolina para o que parecia ser e realmente tornou-se a última lavagem da S10, companheira urbana e viageira por 16 anos. Chegou-me ainda em sua pureza de fábrica e assim a ela, devotadamente, refiro-me porque, em todos esses anos, jamais me colocou em um apuro incontornável. Enquanto, com o coração apertado, rendia-lhe aquela derradeira homenagem; afligia-me um pouco, não pelo bem em si, pelas lembranças do bem que ela me proporcionou por década e meia. Queria que o futuro e ainda incerto novo proprietário a recebesse impecável, como sempre a tratei.

Enquanto esperava pela finalização do serviço, acabei por escutar uma conversa entre um dos funcionários do lava a jato e um cliente:

– Está chovendo no interior, disse o funcionário.

– Graças, comentou o cliente.

– Estive na minha terra há uns dias.

– Como foi?

– Tudo verde! Comprei uma saca de feijão!

– Vai ter por um tempão.

– Distribuí entre familiares e amigos. Fiquei com uns quilos. Depois de um tempo estocado, o sabor muda e os buracos aparecem.

– Rapaz, já eu estou com problema de encontrar gente para a colheita. Ninguém quer mais trabalhar. Querem receber o que não se pode pagar.

– É verdade. Quando vivia na roça, a minha diária era de 4 reais. – Hoje, estão pedindo 40. Desse jeito, não há quem aguente. É melhor deixar de plantar. Não sobra nada depois dos custos.

Recebi de volta a velha companheira e fui embora pensativo. Não detenho muito conhecimento sobre o tema que ouvi, mas atrevo-me a pensar. Muito bem vindo será, aquele que conhecer do assunto e desejar colaborar, contestar, retificar e/ou ratificar o que hora escrevo.

Penso que os pequenos agricultores, que mais dependem dos seus braços e dos de sua família, não vivam esse dilema. Os grandes também não. Dispõem de recursos em variedade e proporção. Mas, há aqueles que precisam da mão de obra alheia e se ressentem da dificuldade para encontrar gente disponível e disposta ao trabalho árduo do campo. O preço que uns desejam receber, não é o preço que se esteja ao alcance de outros pagarem.

Vamos aos cálculos! Quarenta reais, trabalhando-se duro, do amanhecer ao entardecer, quotidianamente com o sol, a chuva e o vento, se durante todos os trinta dias do mês, sem o descanso dominical, alcança-se, ao final do mês, R$1.200,00. Não é tarefa fácil e é pouco. Não é difícil reconhecer, mas muitos donos de terras não têm condições.

Receber, como outrora, R$4,00 por dia trabalhado significa fazer R$120,00 por mês. Nos tempos de hoje, não encontro e nem desejo buscar adjetivos. E que não tarde o dia que isso desapareça por completo, só existindo em registros históricos.

De qualquer maneira, não deixará de ser num duro meio termo que seguirão as mulheres rurais até seus 55 anos e os varões do campo só poderão descansar quando chegarem aos 60. E aposentadoria atual está longe de proporcionar dignidade e merecimento.

Há quem critique os programas sociais. Trago dois relatos sobre o que eles significam para alguns não poucos homens e mulheres e o que podem continuar significando. Que façam os leitores as suas próprias reflexões e interpretações.

Estava em Morro do Chapéu para fazer uma excursão à Gruta dos Brejões, situada em uma distância razoável da sede do município, localizada na área de um quilombo. Meu guia, Seu Gilmar, sertanejo de personalidade marcante. Fiz-lhe uma pergunta em caráter de sondagem, sobre os efeitos do bolsa família na região. Foi-me dito por ele que o sertanejo, pela primeira vez, depois de muito, pôde erguer a sua cabeça sem aquelas humilhantes vergonha e timidez. Deixara de ser um pedinte às portas dos políticos da região e que a tradicional e perniciosa oligarquia estava sendo substituída. Foram palavras de um sexagenário calejado e que me soaram muito sinceras.

Estando no quilombo, comíamos na casa de uma jovem senhora já com sua prole, não tão numerosa, uns três. Era a época da colheita no sudeste, e o seu marido fora trabalhar como boia fria naquela safra. Ela tinha que se virar sozinha. Queixava-se das dificuldades e de algumas falsas promessas. Atrevidamente, perguntei-lhe quanto por mês seria o suficiente para que houvesse alguma tranquilidade e uma folguinha no orçamento – ela ainda não se encontrava inclusa no programa. Disse-me, R$400,00. Sim, com quatrocentos reais passaria o mês quase sem aperto, foi o que ela falou.

A culpa é do trabalhador!? A culpa é do dono da terra!? A culpa é do governo!? A culpa é do intermediário!? Essa é uma figura sombria. Compra a produção e paga a prazo. E vende também a prazo, só que menor. Trabalha com o suor de uns e o dinheiro de outros. O atravessador. Mas a culpa é dele mesmo? Isso já está aí há muito tempo.

É uma estrutura injusta que precisa ser modificada pacientemente; em que coragem, determinação, dignidade e grandeza humana serão necessárias, mas não só para o governo federal, também para os 27 governos estaduais e 5570 municipais. E compete a Brasília capitanear esse grande desafio para mudar o Brasil.

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Author: WBZF

Bacharel em Ciências Econômicas UCSal e Bacharel em História UFBa.

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