Velhos seremos todos …

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Vivemos apressados toda a nossa vida, somos escravos do relógio, nem tempo temos para dedicar aos nossos, para passear, escutar os pássaros cantar…é verdade! Não temos tempo e isso faz com que nem nos apercebamos o quão insignificantes somos. Insignificantes sim. Muitos trabalham sem parar, procuram poder e riquezas, vivem como se cá fossem ficar eternamente, mas não. Tudo tem um começo e tudo tem um fim…tudo, menos os sentimentos. E toda a gente sente. Alegria, tristeza, saudade, medo… A morte é uma condição de vida, mas gera em todos os seres humanos os mais variados sentimentos, entre eles sentimentos de negação. Nega-se inconscientemente a morte, foge-se, pois, depois dela, é tudo desconhecido. Passamos a vida a tentar preservá-la e evitar ao máximo o que é inevitável.

Enquanto somos jovens, apesar da ideia de deixarmos de existir nos assombrar, pensamos que há ainda muito para viver, para aproveitar. E há, mas também é preciso aprender a saber viver, mas isso é outra história. Mas, o tempo passa e depressa chegamos a velhos…e agora? A morte irá nos bater à porta mais cedo ou mais tarde, faz parte do nosso curso de vida e não há escapatória possível. E, por mais que se tente esquecer, não há como não pensar nisso pois, morte e envelhecimento estão irremediavelmente atrelados. Enquanto idosos, existe uma série de coisas a nos lembrar constantemente que não somos eternos: é o nosso corpo que se vai cansando e desgastando, vão aparecendo doenças que nos impossibilitam de fazer o que se estávamos habituados, os filhos já vão tomando decisões por nós pois também já têm mais poder económico, … é o primo que morre, as vizinhas que sempre viveram perto também partem, os amigos… até que morre também o cônjuge com quem se partilhou uma vida inteira. Será que é possível imaginar o sofrimento destas pessoas? A solidão que devem sentir? Só quem realmente passa por isso.

Mas é um facto. As perdas – e não me refiro somente à morte – custam. Cada qual lida com as perdas de forma peculiar, mas todos, sem exceção, passam por elas e, consequentemente, por um processo de luto. E este luto pode ser manifestado tanto por reações físicas, como emocionais ou até comportamentais. Todavia, como afirma Parkes (1998), o luto não é um conjunto de sintomas que tem início após uma perda e, depois gradualmente se desvanece. Envolve uma sucessão de quadros clínicos que se mesclam e se substituem. É um processo de aperceber-se, de tornar real o fato da perda.

Perante este fenómeno, o apoio social da família, da vizinhança e toda a sociedade em geral tem um papel colossal no processo de luto. Está comprovado que o apoio social positivo promove o bem-estar, fomenta a saúde física e psicológica, atenua o stress, promove a adaptação a situações adversas e previne a incidência de transtornos.

Barrón (1996) menciona que o apoio ao idoso pode ser facultado a três níveis: apoio emocional, que faz com que o idoso se sinta querido e respeitado e engloba demonstrações de afeto, simpatia, empatia e estima; apoio material e instrumental que integra um conjunto de ações ou materiais que auxiliam a pessoa idosa nas atividades de vida diárias; e apoio de informação que se caracteriza pelo fornecimento de informações que possam ajudar o idoso a melhor se adaptar às perdas. Assim sendo, numa situação de luto, em que há perdas constantes, considero ser indispensável sentir-se apoiado a todos os níveis.

Contudo, a meu ver, para que o apoio social possa ser realmente útil na velhice, é fundamental avaliar, primeiramente, que tipo de apoio é necessário. Cada pessoa, cada cultura possui distintas formas de lidar com as perdas. Na morte, por exemplo, há rituais e comportamentos que devem ser respeitados como vestir em tons escuros, manter as janelas fechadas, orar… Se dessa forma o idoso se sente melhor, há que respeitar e apoiar, nunca criticar. Deverá também ser facilitada a expressão de sentimentos, acompanhando o idoso e dando-lhe tempo e espaço para se reorganizar emocionalmente. O luto é um processo que, para ser ultrapassado, passa por várias etapas que não se concluem de um dia para o outro. Por isso, o luto não deverá ser apressado e muito menos evitado pois daí poderão advir consequências nefastas conduzindo ao luto patológico.

A família é o centro do apoio social ao idoso existindo, além de vínculos afetivos fortes, um sentido de obrigação, o que faz com que a família assuma a grande maioria das tarefas de apoio. É importante que a família esteja presente e que os seus vários membros desenvolvam a capacidade de comunicação de forma a compartilhar quer os sentimentos relacionados com a perda, quer a forma de melhor apoiar. Fico com a sensação que à medida que se envelhece se vai criando uma maior dependência da família, o que acaba por ser normal devido à senescência. E a família ou por ter pouco tempo disponível ou então por querer fazer o melhor possível acaba por fazer pelo idoso. Mas, a autonomia do idoso nunca deverá ser comprometida. Enquanto tiver faculdades, deverá ser incentivado tomar as suas decisões e a realizar o seu autocuidado. Caso contrário, penso que o apoio será nulo ou até prejudicial para o idoso.

Os vizinhos e amigos também adquirem destaque neste contexto. Sabe-se que atualmente, muitos idosos vivem sós e, quando incapacitados, são os vizinhos que acabam por colmatar as diversas necessidades quotidianas, auxiliando também no combate à solidão e isolamento social. Isto tende a verificar-se um pouco mais nos meios rurais, dado o pequeno número de habitantes e à proximidade que se cria entre as pessoas.

A família, os vizinhos, os amigos também são constituintes da sociedade. Mas considero que a sociedade no seu conjunto tem o dever de apoiar todos os seus membros, tal como preconiza a política do Envelhecimento Ativo. A sociedade tem a responsabilidade de criar espaços e eventos sociais de apoio ao idoso. O luto será vivenciado de forma mais fácil se o idoso se sentir parte integrante da sua sociedade, se sentir que a sua opinião conta. A rede de suporte social deve corresponder a um investimento afetivo e solidário, sendo decisivo ao longo da vida e também na velhice.

Na minha perspetiva, o ideal é que se crie condições para que o idoso pertença a vários grupos sociais, grupos esses que serão pilares de suporte em caso de fragilidade emocional como é o caso do luto. Por exemplo, se uma idosa tiver como suporte o cônjuge, uma família com a qual sabe que pode contar, os amigos que com ela frequentam a igreja e as amigas de um clube desportivo com a qual faz as caminhadas diárias, quando numa eventualidade falecer o marido, haverão outras pessoas disponíveis para apaziguar e apoiar aquela lacuna. Se, pelo contrário, for uma pessoa que só pode contar com o esposo, um dia que este falte, será muito mais difícil para ela superar a sua morte. Por isso, há que tomar medidas para estimular a participação ativa dos idosos na sociedade pois, tenho a certeza, que ganham as duas partes.

Sendo assim, um ajuste das condições externas (da família, amigos, vizinhos e sociedade) irá favorecer uma adaptação positiva a nível interno, permitindo ao idoso seguir em frente ao invés de, inconscientemente, se isolar, se deprimir e preferir morrer.

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Author: Ana Lucas

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