Ser humano cosmico

Falar do ser humano é se aventurar pelo mistério de nossa própria história. É querer abarcar com a mente, aquilo que é maior do que ela.  A vida ultrapassa infinitamente o elemento factível. A concretude da existência é permeada de mistérios…
O ser humano é um indivíduo cósmico, feito da mesma matéria dos demais elementos… Não sem um pouco de espanto, li, certa vez, um belíssimo texto de um renomado arqueólogo que refletia justamente sobre essa continuidade. Ele dizia que “o homem é o menino das estrelas”, precisamente porque entre o pó estelar e a Terra, entre esta última e a vida, entre todas as manifestações de vida que existem ou existiram e o homem, há um tênue elo. A humanidade é mais antiga do que ela mesma, é herdeira de uma história de rupturas e continuidades de nosso planeta (quizá, do universo).
Tal proposição pode parecer estranha e polêmica, mas faz sentido. Se observarmos com atenção, logo nos daremos conta de que, por exemplo, a mesma molécula de água que nutre nosso corpo (penso no cérebro, no coração, nos músculos e nos rins que são formados por mais de 70% de H2O) é a mesma que percorreu outrora seu caminho nos grandes rios; a mesma que, sob forma de gelo, existia ou ainda se descobrirá existir em algum recanto na imensidão do universo. O hidrogênio que aos oxigênios desposou para formá-la é simplesmente o elemento mais abundante que existe, compondo entre 80 a 90% da matéria existente. É também o mesmo que compõe as estrelas, inclusive, o sol que nos banha com seu calor… De fato, somos menino das estrelas… Um mito dos índios iroquês narra justamente a origem humana como advinda do reino celeste.
Verdadeiramente, há uma conexão oculta entre o homem e a matéria que o cerca. Sou composto por milhares de átomos, por milhares de substâncias químicas, sou feito da mesma matéria do universo – “um menino das estrelas”. Uma matéria inanimada que, por algum misterioso desígnio, insistiu ter vida: sou um ser vivo. Sou formado por grande quantidade de células, tecidos, fibras, músculos, nervos, órgãos, sistemas… Tudo isso, faz parte do que sou, entretanto, sou mais que o conjunto da obra. A psicologia da Gestalt teve o grande mérito de nos ensinar que “o todo é maior que a soma de suas partes”.
Lá pelos idos da Renascença a idéia do ser humano como indivíduo cósmico era corrente. O ser humano era tido como reflexo perfeito do macrocosmo, do universo. Ele próprio era um universo em miniatura, um microcosmos. Mas, tal pensamento também se desenvolveu em outras culturas e épocas: na China, Japão, na alquimia, teosofia, nas religiões naturais…
De repente, lembrei-me de São Francisco que ao astro rei chamava de irmão, tinha a lua como irmã e às demais criaturas, amava-as fraternalmente.

Recordo também a intuição poética de Augusto dos Anjos, que em seu soneto intitulado “Psicologia de um vencido”, se auto-denominava “filho do carbono e do amoníaco”. Longe de todo pessimismo, imagino isso como uma forma de apelo para cuidarmos melhor do mundo que nos cerca, como se cuida de um irmão querido. Porém, muitas vezes, cometemos “fratricídio” contra a natureza.
Reflitamos um pouco: não será o homem, seguindo a sugestão franciscana, irmão de toda criatura? Não terá tudo o que existe o mesmo Pai? Não é isso que nos ensina a fé cristã ao dizer que Deus é o Criador de tudo que existe? É preciso, pois, cuidarmos bem de nossa morada planetária.

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