Práticas de ensino: Concepções, objetivos e modalidades

Consideramos que o processo e a prática de ensino, com suas concepções, objetivos e modalidades, são o principal objeto de estudo da Didática. Desse modo, não tem como discutir prática de ensino sem fazer referência à Didática e aos seus componentes, entre os quais está o ensino, objeto do presente texto.

Este texto, pois, tem o intento de fazer uma reflexão sobre as práticas de ensino, destacando os elementos que compõem e estruturam essas práticas no contexto escolar.

Para atingir o objetivo proposto, organizamos este trabalho em três partes básicas: na primeira fazemos referência às principais concepções de ensino e suas práticas correspondentes; na segunda, nos debruçamos sobre os objetivos, explicitando sua importância, caráter e abrangência nas práticas de ensino; na terceira parte, elencamos e caracterizamos as modalidades de ensino, fazendo referência aos métodos e estratégias de ensino.

1. Concepções das práticas de ensino

Entendemos por ensino o conjunto de atividades desenvolvidas pelo professor e pela escola, tendo em vista a produção, assimilação e desenvolvimento das matérias e conteúdos, visando contribuir com o aprimoramento das capacidades cognitivas dos alunos.

Portanto, o ensinar é um processo mediador por meio do qual o professor e a escola operam a instrução (matérias e conteúdos de ensino). Assim o processo de ensino articula dois pólos fundamentais na ação educativa: as matérias/conteúdos e os alunos. Mas, que concepções de ensino orientam essa ação do professor e da escola? Como entendem e operam com os diferentes componentes da didática?

Ora, perguntar pelas concepções de ensino é perguntar o que o professor e escola pensam sobre o que é ensinar; sobre o que e como ensinar; sobre como deve ser a relação com os alunos.

Partindo dessas indagações, dependendo da visão que o professor e a escola têm da matéria, da ação docente e dos alunos; e do modo como articulam esses elementos, é possível identificar as diferentes concepções de ensino que orientam e subsidiam as práticas de ensino na escola.

Segundo José Carlos Libânio, os autores, em geral, concordam em classificar as tendências pedagógicas em dois grupos: as de cunho liberal – Pedagogia Tradicional, Pedagogia Renovada e Pedagogia Tecnicista; e as de cunho progressista – Pedagogia Libertadora e Pedagogia Crítico-Social dos Conteúdos. Há outras correntes vinculadas a uma ou outra dessas tendências, mas essas são as mais conhecidas.

Cada uma dessas tendências produz uma determina práticas de ensino, portanto, um determinado modo de pensar o processo educativo e de relacioná-lo com os outros componentes da ação pedagógica. De modo sumário, apresentamos as principais tendências e suas características:

• Pedagogia Tradicional: a prática de ensino é centrada no professor que expõe e interpreta a matéria ou os conteúdos. O aluno, considerado sempre de forma idealizadora, é visto como o recebedor das explicações e repasses do professor. O processo de ensino situa-se dentro de uma lógica seqüencial, onde os conteúdos são desenvolvidos de forma descontextualizada. Portanto, o ensino caracteriza-se pela transmissão.
• Pedagogia Renovada: essa tendência inclui várias correntes como a progressivista (baseada na teoria educacional de John Dewey), a não-diretiva (inspirada principalmente em Carl Rogers), a ativista-espiritualista (orientação católica), a culturalista, a piagetiana, a montessoriana e outras. Todas essas tendências, segundo Libânio, estão ligadas à pedagogia ativa que surge no final do século XIX como contraposição à Pedagogia Tradicional. Contudo, no caso do Brasil, alguns autores defendem que os conhecimentos e a experiência da Didática brasileira pautam-se, em boa parte, no Movimento da Escola Nova, inspirado principalmente na corrente progressivista. De um modo geral, na Pedagogia Renovada, o ensino é considerado de maneira oposta à PT, onde o aluno é considerado o sujeito da aprendizagem. O papel do professor então é criar condições adequadas e facilitadoras do processo de aprendizagem do aluno, partindo de suas necessidades e interesses. É o próprio aluno que faz por si só, a partir de situações em que se sente estimulado na atividade intelectual, seja ela de criação, expressão verbal ou escrita, ou de outro tipo. O centro do processo de ensino não é o professor nem a matéria, é o aluno ativo e investigador. Há, portanto, dos métodos, técnicas como o trabalho de grupo, atividades cooperativas, estudo individual, pesquisas, dentre outros.
• Pedagogia Tecnicista: nascida nos anos 50 e ganhando força nos anos 60 (século XX), e inspirada na teoria behaviorista da aprendizagem e na abordagem sistêmica do ensino, essa pedagogia se caracteriza pela racionalização do ensino, com o uso de manuais e técnicas de ensino, que instruem o processo de ensino, que inclui: especificação de objetivos instrucionais operacionalizados; avaliação prévia do aluno para estabelecer metas e objetivos a serem alcançados; organização das experiências de ensino ou aprendizagem; avaliação do aluno para identificar o atingimento dos objetivos. Segundo essa pedagogia, o professor é o administrador e executor do planejamento, meio de previsão das ações a serem executadas e dos meios necessários para atingir os objetivos.
• Pedagogia Libertadora e Crítico-Social dos Conteúdos: foram adquirindo força e solidez nos 80, sendo denominadas teorias críticas da educação. A primeira retomou as propostas de educação popular dos anos 60, readequando seus princípios e práticas em função das possibilidades de seu emprego na educação formal em escolas públicas, pois tinham um caráter extra-escolar. A segunda, inspirada no materialismo histórico dialético, constituiu-se como movimento pedagógico interessado na educação popular, na valorização da escola pública e do trabalho do professor, no ensino de qualidade para o povo e na acentuação da importância do domínio sólido por parte dos professores e alunos dos conteúdos científicos do ensino, como condição para a participação efetiva do povo nas lutas sociais. Portanto, ambas advogam uma educação crítica e voltada para as transformações sociais e econômicas, de superação das desigualdades sociais decorrentes do sistema capitalista, embora sejam diferentes nos métodos e estratégias de ensino para atingir esses objetivos.

2. As práticas de ensino e os objetivos

Os objetivos são um componente fundamental nas práticas de ensino, pois todo ensino possui uma intencionalidade político-pedagógica e essa intencionalidade se expressa através dos objetivos. São eles que antecipam os resultados esperados do trabalho conjunto do professor e do aluno. Esses resultados se referem aos conhecimentos, as habilidades e atitudes que o professor e a escola pretendem alcançar com a ação educativa.

Os objetivos, porém, não são neutros. Eles revelam as concepções pedagógicas que o professor e a escola defendem e trabalham. Se uma escola atua segundo a pedagogia tradicional, os objetivos vão revelar as intencionalidades inerentes às concepções de ensino vinculadas à pedagogia tradicional.

Contudo, não podemos deixar de mencionar que os objetivos nas práticas de ensino são fundamentais, visto que eles estabelecem as finalidades e intencionalidades da prática pedagógica, materializando o caráter educativo dessa prática.

Para estabelecer esses objetivos, o professor e a escola definem critérios, é claro, norteados pela visão que têm do ensino e da aprendizagem, determinados segundo as concepções pedagógicas que guiam a ação educativa. Libânio, aponta, no geral, três tipos de critérios que são levados em conta na definição dos objetivos: 1) valores e ideais proclamados na legislação educacional que expressam os propósitos das forças políticas dominantes que controlam o sistema social e educacional; 2) os conteúdos básicos das ciências e elaborados no decurso da prática social da humanidade; 3)necessidades e expectativas da formação cultural exigidos pela população majoritária da sociedade.

Os objetivos podem ser gerais e específicos, sendo que os primeiros estabelecem os propósitos mais amplos da prática de ensino, e os segundos, determinam as exigências e os resultados a curto e médio prazo que a escola pretende atingir junto aos alunos. A abrangência dos objetivos também é considerada na sua definição: no nível do sistema escolar; no nível da escola onde o professor trabalhar e no nível da ação controlado pelo professor.

3. A prática de ensino e suas modalidades

As modalidades de ensino, inserem-se dentro do componente da Didática chamado de métodos e estratégias de ensino, portanto, refere-se ao “como” desenvolver o ensino, ou seja, no conjunto de formas, procedimentos, ações e atividades decorrentes dos processos de ensino e aprendizagem.

A definição dos métodos e estratégias de ensino depende das concepções que o professor e a escola defendem. Se, por exemplo, o professor e a escola possuem uma atuação baseada na pedagogia tradicional seus métodos e estratégias também serão tradicionais, priorizando procedimento, ações e atividades que levam o aluno a memorizar, não questionar e a reproduzir os conteúdos que recebem. Dessa forma, podemos dizer que as modalidades de ensino dependem das opções político-pedagógicas do professor e da escola.

Apresentaremos as modalidades mais recorrentes: a exposição oral; estudo dirigido; debate, seminário, pesquisa, dentre outros. Caracterizemos cada uma delas:

• Exposição oral: trata-se de uma estratégia das mais antigas, remontando ao período jesuítico, caracterizando-se pela ênfase na linguagem oral, na estruturação lógica de um assunto e na transmissão de determinado conteúdo aos alunos. Há, nessa modalidade uma relação unilateral do professor com o matéria e com os alunos, típica de uma educação bancária, como falava Paulo Freire em seus livro Pedagogia do Oprimido.
• Estudo de Textos e Estudo dirigido: são duas modalidades ligadas uma na outra. Trata-se de uma prática que visa colocar os alunos diante de um texto para decodificar a mensagem do autor, descobrindo e discutindo suas idéias, questões, hipóteses, enfim seu ponto de vista. Esta modalidade é fundamental para aprendermos a interpretar, possibilitando uma reelaboração de outra compreensão crítica do texto e de seus contexto.

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One comment

  1. Carol Costa Bernardo /

    Seu texto me ajudou nos estudos para um concurso. O título dele é um dos pontos que serão sorteados :-)
    obrigada

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