Eu era uma argila feliz vivendo nas margens do rio. Mas vida de argila pode ser cheia de mudanças, você sabe. Algumas permanecem no solo por séculos, Já outras são recolhidas e transformadas em ornamentos de cerâmica.
Sei de argilas que estão felizes por terem saído do solo. Hoje enfeitam casas, comércios, chamam a atenção. Algumas viraram cavalinhos de barro, vasos pra plantas, outras brinquedos de criança. Por isso achei que o mesmo fosse acontecer comigo. No dia em que me recolheram achei que fossem me transformar num elefante indiano para enfeitar uma sala de estar. Na verdade eu aceitava ser até uma simples cerâmica colorida, dessas que os gringos adoram comprar. A idéia de viver na Europa me enlouquecia.
Mas não. Nem elefante, nem Europa, nem cerâmica colorida. Em vez disso virei um porquinho de barro com um buraco nas costas.
Porque fui retirado do solo em que nasci? Porque não me deixaram lá, afinal? Hoje sou motivo de piada! Nada é mais vergonhoso para uma argila do que virar um cofre com cara de porco. Céus, um porco!
Ninguém enfeita uma sala com um suíno de argila. Porcos são feios, são sujos, não têm valor algum. No velho testamento eram animais imundos e os judeus se recusavam a comê-los. E agora aqui estou eu, transformado num porco imundo entupido de moedas.
Meu consolo é que meus dias estão contados. Meu proprietário, um menino pão duro de 11 anos, já deve ter economizado uns quinhentos reais de sua mesada dentro de mim. Minha capacidade de engolir as moedas já está no limite, e brevemente morrerei espalhando minhas entranhas de barro misturadas pelo chão. E então meus cacos de barro serão lançados na rua e voltarei à minha condição original: a de barro da marginal de um rio. É tudo o que quero agora.
” Falar de mim é fácil. Difícil é ser eu.”
Visite o www.cafecristao.com

