Sou um bonsai. Uma daquelas arvorezinhas que os japoneses adoram cultivar numa bandeja minúscula. Ultimamente temos invadindo o ocidente também. E não há nada tão ridículo quanto um ocidental suspirando por um bonzai. É mais ou menos assim:
“Olha só que arvorezinha mais bonitinha da mamãe. Vem cá, meu cuti cuti…”
“Agora eu vou regar o meu bebezinho bonzai. Abre a boquinha, arvorezinha linda… guti-guti-guti”
Cuti-cuti ou guti-guti é o raio que o parta! Não sou nenhum bebê árvore e não uso fraldas nas raízes. Sou só uma árvore que deixou de crescer porque algum infeliz achou que fico melhor nessa versão em miniatura. Agora me responde uma coisa, alguém por acaso teve a dignidade de me perguntar se eu gostaria de ficar assim pro resto da minha vida? Acho que não…
O fato é que desde que me colocaram neste vaso não fazem outra coisa a não ser me atormentar. E como é que se atormenta um bonzai? Podando ele, é claro. Funciona assim: você quer crescer, expandir a mente, fazer descobertas e crescer como uma árvore normal quando de repente eis que surge uma tesoura diabólica que lhe arranca um monte de coisas. Foi assim que me arrancaram os galhos, as folhas, pedaços do tronco, raízes, minha alma, minha vida, me arrancaram tudo! Só faltam agora sugar minha clorofila num canudinho! O resultado é que me tornei um vegetal com cara de inseto, uma pulga clorofilada, por assim dizer.
Por isso meu maior desejo é um dia poder dar o troco. E a palavrinha mágica a ser usada aqui é VIN-GAN-ÇA. Assustado? Ah, então você é daquelas pessoas ingênuas que acha que uma árvore é incapaz de guardar rancor em seu coração, não é? Tolinho. A natureza está longe de ser só “paz e amor”. Aliás, ultimamente ela anda louca pra detonar a humanidade de uma vez por todas.
Mas como eu dia dizendo, meu maior desejo é dar o troco. E quando isso acontecer, começarei pelos pés do cidadão. Porque pelos pés? Porque meu dono sempre corta primeiro minhas raízes. Cortando os pés do infeliz estarei podando suas raízes, sua base de apoio, o seu epicentro. O miserável vai sentir na pele o que é ter as raízes decepadas. Mas e depois, o que viria? Já sei, as mãos! As mãos dos seres humanos são capazes de tudo, inclusive manejar as detestáveis tesouras que nos podam. Sem pés e sem mãos o homem ficaria reduzido a um mini-homem, a uma coisinha de nada, exatamente como nós. Mas ainda faltaria podar-lhe o principal: a mente.
Permita que um homem continue pensando, mesmo reduzido a quase nada, e se arrependerá pelo resto da vida. Mas como podar uma massa encefálica? Simples, forçando o indivíduo a olhar para si mesmo, encarando sem parar sua patética condição de toco sem braços e pernas. O horror dessa visão de deformidade irá transtornar sua mente, enlouquecendo-o. E assim terei podado aquele que me poda todos os dias.
Dê pernas e braços a um bonsai e terá um psicopata em sua casa. Ainda quer comprar um de nós?
” Falar de mim é fácil. Difícil é ser eu.”
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