O Pastor Alemão e Eu

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Morava em Alegre, interior do Espírito Santo, cidade cheia de morros, bela por tanto verde, e fria em várias épocas do ano. Tinha lá seus 09 a 10 anos, mas aparência de 13 anos. E minha mãe sempre gostou muito de comprar leites frescos. Até hoje não gosta de leite de caixinha e nem de saquinho, sempre procura um meio de comprar de alguém que tenha chácara, de carroceiros que vende leite, sempre descobre alguém que vende leite fresco na cidade. Nisso, do outro lado de nossa rua, corria um riozinho lindo e calmo, que mais adiante se alargava, e tinha que atravessar por uma enorme ponte, riozinho que cortava a cidade, e em épocas de chuvas, ficava super violento e muito cheio. E as margens desse riozinho, dou outro lado, ainda em nossa rua, tinha uma pequena chácara, dava pra ver as vaquinhas meio magricelas pelo meu gosto, umas pretas, outras brancas encardidas, marrons, brancas com pretas. E todo dia de manhã minha mãe ia nessa chácara, pois lá ela conseguiu o leite que queria e incentivou o dono a vender leite na cidade.

Pois bem, Para chegar até lá seguia nossa rua até a primeira curva, passava a ponte e pronto, já estávamos de enfrente a porteira. Um cara magro, baixo, xapéu pequeno e cinza na cabeça, botonas de borracha cheia de bosta de vaca sempre estava lá fazendo alguma coisa perto da porteira, e isso ajudava minha mãe, eu e meus irmãos a seguir tranquilamente até onde estavam as vaquinhas. Pois tinha muito cachorro, era cachorro demais, sei lá, uns 15, 20 cachorros, muito mesmo, de todas as cores, pequenos e médio portes, e um grandão, pastor alemão, bonito, robusto, forte. Esse ficava calado, sempre longe dos outros, mas atento à tudo! Daí se ordenhava a vaca na hora e pronto, leite fresquinho!

Aí que vem o causo! Minha mãe já tava de saco cheio de ir lá todos os dias de manhã, e começou a mandar eu ir sozinha, e tudo corria bem, como sempre. Todas as manhãs, por volta das 07horas, lá estava eu, caminhando em busca do leitinho pras crianças. Só que num belo dia algo anormal aconteceu. Dizem que foi por que minha mãe me enviou muito mais cedo que o normal, mas fiquei super assustada. E ao caminhar, sentia que algo tava errado, não tava vendo tanto movimento na rua como se via todas as manhãs, e o homem que ficava na porteira não estava lá. Mas tudo bem, eu mesmo abri a porteira, olhei para aquele deserto e pensei “talvez estejam lá pra trás”. E fui seguindo, sentindo o cheirinho fresco das árvores misturado com aquele cheiro de bosta de vaca, aroma de fazenda mesmo. Segui pensando que queria morar ali, deveria ser muito bom correr pelas aquelas árvores, morar na casinha de madeira que tinha logo adiante, pensava, viajava, e queria me mudar para aquele lugar. Mas de repente, minha viagem terminou, voltei a realidade num segundo, arregalei os olhos e já não tinha mais como correr, já estava praticamente mais da metade do caminho, e em minha direção, vinha aquele tanto de cachorros nervosos, bravos, irados de ódio, mostrando cada dente pra mim. Sei que olhei pra trás e pensei “se eu correr, vão me morder”, até por que quando criança, com 05 anos de idade, fui mordida por um cachorro e até hoje levo traumas comigo sobre isso. Doeu pra caramba a mordida, e dizem que foi por que corri dele.

Pois bem, continuando, a minha única alternativa, era continuar ali, nem que fosse parada, enfrentar aquela grande multidão de cachorros bravos. Eles vieram feito touros pra cima de mim, pulando, patas no meu peito, foram dos montes, arranhões, latidos, eu entrei em desespero, e comecei a andar de ré sacudindo a vasilha de alumínio que eu carregava nas mãos nas cabeças deles, mas nada de fazer eles se afastarem de mim. Eu já estava praticamente me rendendo e deixando eles me morderem, sei lá, talvez me mordessem e depois me deixasse estirada pelo chão, e quem sabe eu ainda desse conta de levantar e ir embora (cada coisa que passa na cabeça de criança).

Mas algo extraordinário aconteceu, que sinceramente, até hoje não sei explicar o que houve, e na minha luta sem cessar com aqueles cachorros, aquele que falei, grandão, forte, robusto, bonito, o pastor alemão, veio em minha direção. De início pensei “agora vou morrer mesmo”, mas não, ele chegou nervoso sim, mas veio como se fosse um anjo, pulava alto e empurrava os cachorros pelas patas, latia forte, e tirou um a um de cima de mim, e todos eles saíram chorando, e todos só olhando de longe com medo daquele cachorro. Eu fiquei sem entender olhando pra ele e ele me olhando, confesso que as lágrimas praticamente rolaram em meu rosto.

Como assim, ele me salvou? Nisso firmei a vasilha na mão e ele latiu pra mim com se dissesse “vá agora”, e eu parecia entender, voltei no caminho inverso, e ele do meu lado, com a língua pra fora, e me olhando de lado, e as vezes olhava ao chão, me acompanhou até a porteira. Na qual eu abri, fechei, e ele lá, parado, me olhando até eu sumir das vistas dele. Eu saí encabulada, emocionada também, e nem contei a minha mãe, de tão sem palavras que fiquei. Tava arranhada e tals, mas disse à ela que tinha caído, não queria passar a vergonha de ter que falar que um monte de cachorro avançou em mim. E disse que a chácara ainda estava fechada, foi onde ela percebeu que eu tinha ido muito cedo.

E logo mais tarde, fui novamente a fazendinha, já tinha movimento, todo mundo trabalhando, e os cachorros tudo distante, e aquele solitário, o meu “chapolin colorado”, calado e quieto como sempre, estava lá, mas parecia me reconhecer. E foi assim durante todo o tempo em que morei em Alegre, sempre o via, e nunca mais aqueles cachorros me beiraram, e ele lá, só me olhando de longe, e eu me sentia tão segura quando o via, bateu até uma saudade dele agora. Com certeza já não está neste mundo, mas foi o cachorro que salvou a minha vida, e jamais irei esquecê-lo, não sei por que ele fez aquilo, mas carrego ele pra sempre dentro de meu coração. Pena que nunca soube seu nome. Eternas saudades de você seu caladão pastor alemão.

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Author: Frann de Carvalho

DJ ATUANTE DESDE DE NOVEMBRO 2005 e AMANTE da música de variados ESTILOS, desde sua infância, não se prendendo somente a um tipo, mas buscando inovações em diversas modalidades musicais, alternando entre os Nacionais (POP, AXÉ, FORRO, FUNK, ELETROFUNK, MPB, SERTANEJO, PAGODE, SAMBAROCK, REGGAETON, ANOS 80, entre outros) até aos Eletrônicos (TRIBAL, VOCAL, PROGRESSIVE, ELETRO, HOUSE, HIPHOP) e outros segmentos, na busca inconstante de tocar por um AMOR INCONDICIONAL: A MÚSICA que leva qualquer um a variados sentimentos SEJA QUAL FOR!

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