O Brasil sob o olhar estrangeiro nas artes visuais

Telefone toca. Uma jovem atende. Do outro lado da linha é o locutor de uma suposta rádio, anunciando que ela havia sido sorteada para uma viagem com tudo pago para Bahamas. A única condição para tal era responder uma pergunta: qual é a capital do Brasil? A personagem americana, desesperada, por não saber a resposta, procura no armário produtos de origem brasileira. Encontra pacote de café, onde está escrito que o produto era proveniente do Rio de Janeiro e conclui que esta é a capital do país. A voz do outro lado, após um pouco de suspense, diz que a personagem acabara de ganhar o prêmio. Na verdade, trata-se de uma armadilha. Entretanto, a maioria do público americano também fora iludido. Só depois, quando a protagonista encontra-se em uma sala, escondida do assassino serial, vê um globo e, por curiosidade, procura a capital do Brasil no mapa, aí descobre que, na verdade, é Brasília e não o Rio de Janeiro o centro administrativo do país.

A cena do Filme “Eu ainda sei o que vocês fizeram no verão passado” (1998) é sintomática por se tratar de um suspense (terror) e tal pergunta teria o intuito de gerar surpresa nos espectadores, sobretudo, o público internacional. Mas, o desconhecimento sobre coisas simples como esta, reflete a construção mental que as mídias estrangeiras têm de nosso país. Por exemplo, em “Brenda Starr” (1989), os brasileiros falam espanhol! Coisa reproduzida também no episódio dos Simpsons no Brasil.

Erros de geografia relacionados ao Brasil são tradicionais. Por exemplo, em “007 contra o Foguete da Morte” (1979), o agente inglês luta com um vilão internacional no bondinho do Pão de Açúcar, acaba caindo nas águas e vai parar no rio Amazonas! Acontece que entre o Rio de Janeiro e o Amazonas são mais de três mil e seiscentos quilômetros de distância e não é possível chegar direto pelas águas!

Em “Próxima parada, Wonderland” (1998), o ator interpretando um brasileiro convida a americana para fugir para as praias de São Paulo. Detalhe: São Paulo é uma grande metrópole, não há praias!
Nosso país é retratado de forma estereotipada no exterior mesmo com o aumento da informação proporcionada pela internet: lugar exótico, de selva, sem lei, onde tudo é permitido, onde ninguém trabalha, a população é pobre, mora em favelas, as mulheres fazem topless na praia, o povo segue religiões afro etc.

Na verdade, as mulheres brasileiras não praticam topless nas praias, algo que é hábito em algumas regiões européias! No Brasil, a umbanda, o candomblé e outras práticas tradicionais africanas, de acordo com o senso de 2000, representam algo em torno de 0,3% da população. Apenas 5% da população brasileira é considerada pobre e, segundo relatório da ONU, o número de brasileiros morando em favelas reduziu 16% na última década. Durante décadas, a maior parte da população brasileira era branca, mas sempre quando se fala do Brasil pensa-se nas mulatas!

Em 40% dos filmes estrangeiros sobre o Brasil, os bandidos fogem para o nosso país por conta da idéia de atraso e impunidade. É digno de nota, porém, que a Interpol considera a polícia brasileira como a que mais prende fugitivos internacionais.

Ainda assim persistem os preconceitos. Basta lembrar que o ator estadunidense Robin Willians gerou polêmica ao afirmar, no final de 2009, que o Brasil só sediaria as Olimpíadas de 2016 graças à comissão brasileira que enviou cinqüenta strippers e cocaína. Ou Sylvester Stallone, que, em julho do ano passado, chegou a declarar que aqui se podia explodir o país e as pessoas ainda aplaudiriam, inclusive se podia ganhar um macaco de presente.

Falando em animais, muitos filmes retratam a existência de macacos nas praias do Rio de Janeiro. O episódio dos Simpsons, no Brasil, falam de ataque de macacos e ratos coloridos. O filme Anaconda (1997) tem como personagem uma sucuri de doze metros que devora tudo e a todos no rio Amazonas! E uma revista em quadrinhos edição especial do Batman, em março de 1993, chegou a fazer alusões a um leão no Brasil, muito embora, estes animais sejam de origem africana!
Ainda sobre o Batman no Brasil. Ele veio atrás de uma vilã conhecida como Dama de Copas, que foge para o Rio de Janeiro descrito como “um bom lugar para desaparecer”. Na história, fala-se de um grande Templo abandonado na floresta Amazônica (coisa nunca que nunca existiu!), a favela é retratada como lugar de jogatina, gente pobre, bêbada e de violência, o mundo das drogas, traficantes e dos meninos de rua, há referências ao carnaval e carros alegóricos. O Homem-morcego compara o Rio de Janeiro à Gothan City, pela noite agitada e violenta, porém, mais quente. O personagem é ajudado por um índio de Amazônia, que mais parece um caubói americano, que havia sido expulso da floresta. A floresta é vista como o lugar exótico, onde acontecem rituais e cerimônias religiosas misteriosas, envolvendo uma raiz alucinógena.

Parte da culpa dessas construções mentais equivocadas também é nossa, visto que muitas dessas imagens são reproduzidas por nós mesmos. Filmes como Tropa de Elite (2007) e “Cidade de Deus” (2002) – ambos estão entre os mais vistos do cinema nacional no mundo e os mais premiados – mostram a vida na favela, pobreza e tráfico de drogas.

Também é conhecida a questão das rotas de tráfico de drogas que passam pelo Brasil: a ONU falava em 80 toneladas de cocaína em 2008, destinadas, sobretudo, à Europa. O Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (CECRIA), apontava em 2009, a existência de quase duzentas e cinqüenta rotas de tráfico de pessoas, principalmente, negras e mulatas, das quais mais da metade é destinada ao exterior, sobretudo, Suriname, Bolívia, Espanha e Alemanha. Os jornais internacionais divulgam os escândalos de corrupção no país e o governo nacional investe em campanhas de turismo destacando os clichês comuns.

Reforços como o recente intercâmbio cultural cinematográfico entre Rio de janeiro e Hollywood contribuem: cenas do Incrível Hulk (2008) foram filmadas em favelas da cidade e o mesmo se deu com Velozes e Furiosos 5, retratando entre outras coisas o tráfico de carros roubados.

Entretanto, um estudo realizado em 1998, com cerca de duzentos filmes que tem como tema o Brasil, constatou-se que muitos dos cineastas e roteiristas nem ao menos se deram o trabalho de fazerem pesquisas in loco. Acontece que a lógica do cinema é diferente da do documentário. Os diretores têm uma certa “licença poética” para (re)criar as paisagens, às vezes, totalmente descompromissadas com a realidade. O que se reproduz no cinema é o que se encontra na imaginação coletiva, ou seja, os estereótipos comuns. Outro ponto é que, algumas vezes, a visão é condicionada pelo público-alvo: não se quer ver no cinema o cotidiano real, mas o lugar da fantasia, portanto, quanto mais exótico melhor.

Por fim, gostaria de dizer que tais imagens foram construídas historicamente. A idéia de que o Brasil é um país do exótico remota aos tempos do “descobrimento” português: Pero Vaz de Caminha escrevera, em sua carta, que aqui era uma  terra fértil e um paraíso no qual as mulheres andavam nuas. A noção de impunidade remota aos degradados trazidos nos porões das caravelas durante o período colonial. Entretanto, existe um elo antropológico pouco considerado: em praticamente todas as civilizações, o estrangeiro vê o país distante do outro como exótico, por exemplo, os gregos falavam das Ilhas de Lesbos, habitadas apenas por belas mulheres e Mandeville, em seu Livro das Maravilhas, no século XIV, narrava histórias fantásticas sobre a Ásia, sobre monstros e criaturas sobrenaturais. O que acontece na realidade são trocas simbólicas, onde o olhar interpreta e a imaginação constroem a realidade, por vezes, de forma preconceituosa. Devemos manter uma leitura crítica dos fatos.


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