Mudancas sociais e Internet

Algo que não se pode mais ignorar é a força da Internet e seus reflexos na sociedade. Para citar apenas um exemplo, recentemente, pudemos acompanhar através dos noticiários a grande onda de manifestações na Tunísia, iniciadas através das redes sociais, o que levou ao governo decretar o fechamento de todos os servidores de acesso à rede a fim de minar o fluxo de informações.

Claro está que a Web 2.0 está sendo responsável por uma série de mudanças sociais, criando novos hábitos, linguagens, comportamentos a ponto de os sociólogos falarem de uma nova geração: os “nativos digitais”. O encurtamento das distâncias, a simultaneidade e a interconectividade tem seus reveses: surgem novos desafios para o direito, para a segurança, a pedagogia, para ecologia etc. Alguns desses pontos abordaremos aqui.
Fruto dos mais expressivos da globalização, a Internet possibilitou a superação das distâncias e do tempo na comunicação. As empresas atuais podem evitar gastos com deslocamento de pessoal para reuniões, suporte, controladoria, treinamento, fiscalização através de programas de vídeo conferência, o que possibilita também a transmissão simultânea de eventos. O empresário pode acompanhar, em tempo real, o andamento de sua companhia ou monitorar à distância seu estabelecimento onde estiver. A rede mundial permitiu a criação de sistemas de informações bastante bem integrados, derrubando as limitações regionais (ou mesmo nacionais) das unidades de negócio. Uma empresa pode ter seu escritório na Europa, sua linha de montagem na China e seu mercado consumidor na América. Além do mais, todo o processo logístico pode ser acompanhado em tempo real, evitando desvios, desperdícios, etc.

Em contra-partida, as empresas se tornam dependentes de um sistema. Qualquer falha a nível operacional ou nas instâncias mais elevadas dos servidores paralisa todo o processo a nível global.
Outro grande problema será o alto investimento em arquivamento e armazenamento dos dados nos próximos anos. A saída poderá ser a cloud computing: os dados poderão ser guardados em um espaço cibernético heterogêneo, sem a necessidade de um hardware para tal e daí poderão ser acessados a qualquer tempo ou lugar.

O grande perigo é dos chamados “cybercrimes”, cujas provas, outrora armazenadas em um HD, agora passarão a existir em um espaço virtual inacessível. Só no ano passado os bancos brasileiros tiveram prejuízos de quase quinhentos milhões de reais com “crimes virtuais”.

A questão da (in)segurança na rede não atinge apenas as empresas, o cidadão comum também pode ter seus dados roubados. A cada dia se aperfeiçoam mais as técnicas e a ousadia dos harckers: vírus, worms, trojans, embutidos em arquivos de vídeos, imagens, áudio ou em páginas falsas, programas de captura de imagens etc.

Infelizmente, os crimes cibernéticos não se limitam apenas a esses. Há uma infinidade: divulgação de material pornográfico de crianças e adolescentes, incentivos à violência, racismo, preconceitos, uso de drogas, pirataria, bullying, lavagem de dinheiro, comercialização de produtos ilegais etc. A Internet garante o anonimato e segurança a muitos criminosos. Por isso, urge a criação de um código específico de leis a nível mundial.
Novas profissões surgirão com o advento da Internet: web designer, web writter, o gstor de conteúdo, o assessor de impressa e o relações públicas em mídias sociais, especialistas em e-marketing, vendedor pela internet, blogueiro, etc.

A própria forma de recrutamento e seleção tem mudado. Há agências de emprego eletrônicas. Há empresas que, além do currículo tradicional, está analisando o perfil de seus candidatos nas mídias sociais. Já houve, inclusive, casos de pessoas que foram demitidas por postarem coisas indevidas.
Falando nisso, as relações trabalhistas tendem a mudar brevemente. Há especialistas que prevêem o fim do emprego formal de carteira assinada em detrimento da prestação de serviço.

Um ponto positivo é a socialização e disponibilidade de uma gama enorme de informações. Estima-se que para a próxima década o volume de dados eletrônicos crescerá aproximadamente 44 vezes por ano. Esse aumento exponencial tem tornado os consumidores mais conscientes de seus direitos e mais exigentes, obrigando as empresas a reavaliarem seus produtos e serviços. Aquelas as quais não atenderem às exigências do mercado, logo serão ultrapassadas, cada vez mais rápido, visto que a concorrência há muito deixou de ser local para ser mundial.

O surgimento das redes sociais eletrônicas deu poder de transformar o cidadão comum em “formador de opinião” com tanta influência nas decisões quanto um artista ou personagem da mídia. As pessoas hoje têm seguidores. Isso pode ser positivo para as instituições que oferecerem os melhores serviços e devastador àquelas que não corresponderem às expectativas. O diálogo entre consumidor e empresa foi verticalizado. Os clientes ganharam forças na relação.

A internet trouxe também novas formas de divulgação de bens, serviços e idéias. Ela é hoje o terceiro veículo mais utilizado para propaganda: banners (fixos e móveis), e-mail marketing, vídeos virais, blogs, links, buscadores, spans  – para citar alguns poucos. Informação passou a ser o principal ativo das empresas.
Por outro lado, o excesso de informações tem suas conseqüências. Psicólogos, pedagogos e neurologistas têm alertado para problemas como déficit de atenção, pensamento acelerado, diminuição da capacidade de memorização, de reflexão crítica e da imaginação.

O impacto dos usos da informática na saúde já preocupa também a área da saúde. A lista é enorme: estimula o sedentarismo e a obesidade, corre-se o risco de Lesões por Esforços Repetitivos (L.E.R.), a má postura pode resultar em problemas de coluna e nas articulações; o uso prolongado de computadores causa ressecamento nos olhos, irritação, vermelhidão, coceira, dor de cabeça, estresse, insônia, ansiedade, depressão.

No campo comportamental, percebe-se uma geração totalmente dependente (alguns diriam até, viciados) da Internet. Paradoxalmente, o excesso de comunicação virtual pode gerar o isolamento do mundo real. As pessoas estão cada vez mais impacientes e imediatistas e menos dispostas à interações sociais duradouras no mundo real, o que é bastante importante para a formação da personalidade e noções fundamentais de respeito, convivência e tolerância.

Que a Internet mudou nossos hábitos percebe-se também no comércio. O e-commece, no Natal, do ano passado, movimento mais de dois bilhões de reais, indicando que essa modalidade está ganhando credibilidade. E esse é só um aspecto: imagine a quantidade de transações financeiras on-line – compra e venda de títulos, pagamentos, notas fiscais eletrônicas, movimentações bancárias, etc.

A informática trouxe uma nova linguagem: o internetês – uma forma de jargão utilizada pelos jovens usuários das mídias sociais, na qual há prevalência do sistema fonético, eliminação de acentos gráficos e utilização de códigos específicos e emotions. Alguns pedagogos temem que o fenômeno provoque problemas de ortografia mais grave. Outro impacto que já se percebe é sobre a caligrafia dos estudantes. Além da prática do “copiar e colar” na elaboração dos trabalhos, sem que tais informações sejam analisadas e produzam conhecimento.

Todo o conforto criado pela tecnologia tem seu preço. Uma das grandes preocupações  é com relação ao “e-lixo”. A rápida depreciação dos equipamentos tem seu impacto no meio-ambiente. Hoje, o Brasil é o campeão na produção de lixo eletrônico entre os países emergentes. Segundo relatórios da ONU, o brasileiro descarta anualmente 96,8 mil toneladas de PCs e 17,2 mil toneladas de impressoras. O perigo é que esses equipamentos podem liberar, no ambiente, metais pesados de grau bastante elevado de toxidade (mercúrio, cádmio, berílio, chumbo) contaminando solos, lençóis freáticos e causando uma série de doenças. É necessário a elaboração de um código de leis específico que regulamente a destinação desses resíduos. Reciclagem pode ser uma saída interessante.

Diante de tudo isso, podemos perceber que as gerações da década de setenta e oitenta mudaram realmente o mundo, através das tecnologias de informática. Se isso é bom ou ruim, o tempo o dirá.


Quer receber os novos artigos por email? Então insira o seu endereço abaixo:

Deixe o seu Comentario

SEO Powered By SEOPressor