Didática: Objeto de estudos e suas relações

Este trabalho intenciona fazer uma reflexão sobre a Didática, destacando seu objeto de estudo e suas relações. Para tanto, entendemos ser necessário definir o que seja Didática e fazer uma breve contextualiação histórica desse ramo de estudo da Pedagogia
O texto está, pois, estruturado segundo as seguintes partes: definição da Didática; contextualização histórica da Didática; o objeto de estudo da Didática e suas relações.

Definição de Didática

Com base em José Carlos Libânio (1994), compreendemos que não se pode falar de educação, prática pedagogica, de relações sociais e políticas na esfera das instituições educacionais e comunitárias sem fazer referência à Didática. A Didática é um ramo da Pedagogia que estuda todos os fatores que interferem no processo de ensino e aprendizagem.
De modo particular, a Didática tem grande centralidade e importância na ação educativa que se desenvolve no âmbito da escola. Essa centralidade e importância residem no fato de que a Didática trata de todos os aspectos que dizem respeito à concepção de ensino, `a organização do trabalho do professor, à definição dos conteúdos a serem trabalhados, à relação professor-aluno, aos fundamentos e objetivos do processo de ensino e aprendizagem. A Didática, portanto, é a mediação fundamental que permite pensar e implementar a ação educativa em todas as suas dimensões. Nesse sentido, podemos afirmar que a Didática está intimamente ligada à Teoria da Educação e à Teoria da Organização Escolar, e, de modo muito especial, vincula-se à Teoria do Conhecimento e à Psicologia da Educação.

Contextualização histórica da Didática

Ora, se a Didática está intimamente ligada à Teoria da Educação, que a subsidia e a norteia, não há como compreendê-la no seu potencial e nos seus limites sem nos reportarmos a sua evolução histórica, para percebermos como ela vem se estabelecendo e até que ponto é influenciada pelas concepções teóricas de educação e de pedagogia.
Vários autores e autoras defedem que a Didática passa a ser tomada como curso ou disciplina a partir do século XVII, quando o educador tcheco João Amós Comênio, formula os princípios da educação racionalista tomando como base a ciência moderna e os estudos sobre a natureza. Na sua obra, “Didática Magna – a arte de ensinar tudo a todos” (1633), Comênio defendia como meta para a educação a reforma da fé cristã e um método de ensino baseado na economia de tempo e fadiga, na racionalidade e eficiência. Na época, vivia-se a transição do absolutismo das monarquias para a ascensão da burguesia comercial. A Didática de Comênio foi extramamente importante para os ideais da burguesia que, deixando de lado os aspectos teológicos da obra comeniana, abraçou os procedimentos didático-metodológicos, colocando-os a serviço de seus interesses econômicos e políticos.
Mais tarde, no século XVIII, Jean Jacques Rousseau, segue as “pegadas” de Comênio, inaugurando uma nova revolução didática, com suas obras “O Contrato Social” e “Emílio” ou “Da Educação”, onde o filósofo suiço apresenta um novo conceito de infância – a criança é boa por natuereza, corrompida posteriormente pela sociedade – e defende uma educação livre, espontânea e natural. O filósofo faz crítica a didática de Comênio, principalmente o sua adaptação e vínculo com o projeto da burguesia, e afirma a educação como um processo que recupera e desenvolve a verdadeira natureza humana, que, segundo ele, é boa. A educação para Rousseau, vem da natureza, dos homens e das coisas; portanto, vem do desenvolvimento das faculdades internas do ser humano, das coisas que os seres humanos nos ensinam e das experiências que fazemos na relação com a natureza e com os outros seres.
No século XIX, as sociedades eram dominas pela burguesia e esta precisava avançar em seu projeto econômico,social e político. As pedagogias de Comênio e Rousseau já não eram adequadas aos seus interesses, pois a primeira pertencia a um mundo onde a produção manufareira era dominante, periodo já superado; a segunda, atendia a um periodo revolucionário também superado. É neste contexto que nasce a contribuição de Johann Friedrich Herbart (1776-1841), filósofo e psicólogo alemão, considerado um dos pioneiros da psicologia científica e criador do método de ensino fundamentado em quatro passos: 1) clareza na apresentação do conteúdo (etaá de demonstração do objeto); 2) associação de um conteúdo a outro com outro assimilado anteriormente pelo aluno (etapa de comparação); 3) ordenação e sistematização dos conteúdos (etapa da generalização); 4) aplicação a situações concretas dos conhecimentos adquiridos (etapa de aplicação). Os objetos deviam ser apresentados mediante os interesses dos alunos e segundo suas diferenças individuais, por isso seriam múltiplos e variados.
A pedagogia de Herbart conquistou o mundo e espalhou-se naturalmente nas redes escolas públicas, que se expandiram a partir do século XIX.
A burguesia, naquele momento histórico, precisava de uma pedagogia científica capaz de fundamentar uma escola eficiente, porque precisava instrumentalizar-se culturalmente, preparar a elite para o avanço científico, formar seus quadros, formar o cidadão e dificundir sua visão de mundo às camadas populares.
Nasce então neste contexto o movimento da Escola Nova, no qual se destaca o pensamento de Jonh Dewey. O movimento escolanovista nasce acusando a escola tradicional de ineficiente, não científica e medieval. Jonh Dewey propõe então um novo ideal pedagógico, afirmando o ensino pela ação e não pela instrução. Propondo, portanto, uma educação pragmática e instrumentalista, Dewey defendia que a ação educativa reconstruia continuamente a experiência concreta, ativa, produtiva, de cada um. Segundo ele, há uma escala de cinco estágios do ato de pensar:
1º. Uma necessidade sentida;
2º. A análise da dificuldade;
3º. As alternativas de solução do problema;
4º. A experimentação de várias soluções, até que o teste mental aprove uma delas;
5º. A ação como a prova final para a solução proposta, que deve ser verificada de maneira científica.
Assim, podemos dizer que, em última analise, a Escola Nova, sob muitos aspectos acmpanhou o desenvolvimento e o progresso capitalista, na medida em que não evidenciava a exploração do trabalho e a dominação política, próprias de uma sociedade de classe; na medida em que estabelecia como fim da educação o próprio processo educativo, desvinculando-o do contexto e da luta social presentes numa socidade de classe.
Descatamos nesse período da Escola Nova a apresentação de vários métodos de ensino, uma vez que se precisava atuar com cratividade visando a ação do aluno, considerado o autor de sua própria experiência. Citamos como exemplo o Método de Projetos, proposto por Willian-Heard Kilatrik, que classficava os projetos em quatro grupos:de produção; de consumo; de resolução de algum problema; ou de aperfeiçoamento de alguma técnica.
Outra exemplo que se descata no período da Escola Nova é o Método dos Centros de Interesse criado por Ovide Decroly. Os centros seriam para ele: a família, o universo, o mundo vegetal, o mundo animal, etc. Esses centros de interesse desenvolviam a observação, a associação e a expressão.
Encerrando essa breve contextualização, ressaltamos ainda que, na segunda metade do século XX, uma visão critica a respeito da Escola Nova vem desmistificar o otimismo dos educadores novos, afirmando que toda educação é política e que ela, na maioria das vezes, constitui-se , em função dos sistemas de educação implantados pelos estados modernos, num processo através do qual as classes dominantes preparam a mentalidade, a ideologia, a conduta das crianças para reproduzirem a mesma sociedade e não para transformá-la. No decorrer no século XX e do século XXI, basicamente três projetos de escola vão ocupar o cenário educacional: a pedagogia tradicional, a pedagogia da escola nova ( e no seu bojo a pedagogia tecnicista) e a pedagogia crítica.

Objeto de Estudo da Didática e suas relações

Depois de definir Didática e fazer uma breve contextualização histórica dessa disciplina, podemos tratar agora do objeto de estudo da Didática.
A Didática tem como objeto de estudo o processo de ensino, campo principal da educação escolar. Porém o processo de ensino, portanto o objeto da Didática, não se restringe a instrução. O processo de ensino inclui também: os conteúdos dos programas e dos livros didáticos, os métodos e as formas organizativas do ensino, as atividades do professor e dos alunos e as diretrizes que orientam e regulam esse processo.
Mas, o que é o processo de ensino? O processo de ensino, segundo José Carlos Libâneo, é uma sequência de atividades do professor e dos alunos, tendo em vista a assimilação de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades, através dos quais os alunos aprimoram capacidades cognitivas (pensamento independente, observação, análise-síntese e outras).
Essa compreensão do processo de ensino nos remete, pois, ao entedimento da natureza desse ato político-pedagógico, que é a mediação da relação cognoscitiva entre o aluno e as matérias de ensino. Logo, o ensino não é só a transmissão de informações, mas também o meio de organizar a atividade de estudo dos alunos.
Podemos dizer então que o processo de ensino envolve quatro componentes fundamentais: a matéria (conteúdos do livro didático, do programa), o professor, os alunos e as condições internas e externas das situações didáticas. Conhecer bem esses componentes e principalmente as condições, sabendo lidar bem com elas, constitui uma tarefa básica do professor para a boa condução do trabalho docente.
Desse modo, temos que compreender que o processo de ensino, alvo maior da Didática, não se reduz à sala de aula, pois implica: considerar que os atores do processo educativo estão inseridos numa dinâmica e história locais, afirmando ou negando determinadas relações sociais, que podem contribuir ou não com o processo de ensino-aprendizagem; levatar em conta que as variáveis presentes do processo de ensino e aprendizagem – teorias e práticas pedagógicas, os objetivos da escola e dos professores, os conteúdos escolares, a relação professor-aluno, etc. – não existem de maneira isolada do contexto econômico, social e cultural mais amplo, afetando as condições reais em que se realizam as atividades escolares e docentes; entender que o professo não é só professor, ele participa de outros contextos de relações sociais, onde é, também, aluno, filho, pai, membro de uma comunidade, sindicato, etc.,contextos esses que , afetam e interferem em suas práticas; assumir o fato de que a eficácia do trabalho docente depende da filosofia de vida do professor, de suas convicções políticas, de seu preparo profissional, do salário que recebe, da sua personalidade, dentre outras características.

Conclusão

Tendo apresentado uma definição de Didática, contextualizado historicamente esse campo de conhecimento e prática de trabalho e feito referência ao objeto de estudo dessa disciplina, podemos finalizar dizendo que a impossível conceber a ação educativa escolar sem considerar a Didática, pois é ela que opera o pensar e o fazer pedagógico, materializados nos conteúdos, nos métodos, nas relações professor-aluno e nas condições necessárias para viabilizar os objetivos da educação escolar. Conhecer bem o processo de ensino-aprendizagem, apropriando-se de todas as variáveis que nele interferem, bem como considerar os contextos (internos e externos) em que se inserem o pensar, sentir e fazer a ação educativa e estar preparado continuadamente para compreendê-los e lidar com eles, parece ser talvez o principal desafio da escola e do professor na tarefa de contribuir na formação de pessoas e na transformação da sociedade, visto que o ato educativo, como disse Paulo Freite, é um ato político.

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