Conto – Gritos na noite

[ad#admin]

Já fazia pouco mais de um ano que a cidade de Cachoeira das Adagas sofria com os garras do ritual sombrio, conjurado nas colinas ao sul, além da cidade. As colinas das adagas, responsável por abrigar o sepulcro todos os cavaleiros que foram mortos na tentativa de retomar o vale da adaga das mãos zentharim em tempos de outrora, fora transformada em um local amaldiçoado e proibido, pois as almas que ali descansavam foram transformadas em sombras atormentadas. Sombras estas que, pouco a pouco, passaram a migrar para a cidade de cachoeira das adagas, levando o caos enquanto se ocultam na escuridão noturna. Impossibilitado de proteger sozinho os habitantes da cidade do ímpeto sombrio, o lorde Randal Morn tomou duas decisões: Requisitar auxílio dos cavaleiros do norte (ordem devota de Kelemvor) e impor um toque de recolher, que proíbe todos que não sejam soldados a transitar nas ruas de cachoeiras das adagas após a chegada da noite.
Por motivos não revelados pelos reclusos cavaleiros do norte, após a chegada dos mesmos na cidade, o número de ataques ocorridos dentro de moradas (estabelecimentos e lares) fora reduzido significativamente (o que validou ainda mais o toque de recolher). Todos podiam afirmar com clareza que dentro de suas vivendas estariam seguros, até este dia:

Noite do dia 09/10/1373,uma noite de festejos em cachoeira das adagas (na medida do possível). Estes festejos comemoravam o quinto ano da liberdade do vale após a opressão Zentharim. Mas, seriam estes, tempos de comemoração? Normalmente, nos poucos anos que todos tiveram entre a libertação do vale e a submissão ao ritual sombrio, estes festejos eram comemorados ao ar livre, por toda cidade, onde os soldados de Randal Morn (intitulados como cavaleiros da liberdade) eram ovacionados por todos. Após o ritual sombrio, estes festejos se transformaram em simples dias de folga, onde soldados se espalhavam pelas tavernas locais e ‘festejavam’ solitariamente os seus feitos entre uma caneca de cerveja e outra. E nessa noite não foi diferente… A taverna do anão manco (situada no interior, a leste da cidade) abrigava parte dos soldados que, apesar dos tempos difíceis, tentavam encontrar um motivo para esboçarem sorrisos. Os cavaleiros do norte fizeram a ronda das ruas naquela noite, para que os soldados locais pudessem se resguardar no conforto das estalagens, e Rodgar ficara responsável pelos arredores da estalagem do anão manco. Os membros da sociedade do escudo, junto a Alannah, que se instalavam naquela taverna, puderam notar com clareza a falta de ânimo nos olhares que permaneciam vazios. Para muitos ali, a razão de festejar a ‘liberdade’ não existia, pois esta fora parcialmente privada de com a imposição do ritual sombrio. Para muitos, a liberdade e a motivação para sorrir era algo que cachoeira das adagas não proporcionaria mais.

Um homem solitário segurava seu bandolim enquanto permanecia sentado em sua cadeira apoiando os pés sob sua mesa. Este tocava avulsamente melodias belas em seu instrumento, a fim de revigorar o estado de espírito do local, mas a efetividade era fraca. E somando-se a isso, Angus bateu sua caneca na mesa e propôs um brinde aos soldados, provocando uma certa euforia que não perdurou por muito tempo. O desanimo estava por começar a contagiar a sociedade do escudo até que este sentimento fora transformado e algo ainda pior, o medo!
Já havia passado da grande lua, e Rodgar ainda caminhava solitariamente pelos arredores da estalagem com a sua tocha, que causava a penumbra necessária para que a ronda fosse executada. A monotonia insistia em permanecer a cada passo dado naquele chão pavimentado, até que cavaleiro percebera que nuvens negras que dançavam no céu acima da taverna. A princípio chegou a cogitar a hipótese de que uma tempestade se aproximava mas, forçando a vista para perceber melhor do que se tratava… Rodgar concluiu que não se tratava de uma nuvem, e sim uma revoada de sombras fumacentas e espessas, que pairavam sob a taverna, ocultando-se pela escuridão do céu. Rodgar, apavorado, se manteve parado por alguns minutos observando a grande massa negra que se movimentava lentamente até o momento de inércia se cessou. As sombras se dividiram e desceram investindo contra a estalagem e o cavaleiro! Rodgar usou de seu símbolo sagrado para se manter protegido do lado de fora, e acabou por avisar a todos lá dentro indiretamente (afinal, a luz causada pelo símbolo atravessou uma das janelas da taverna, conferindo uma luminosidade mais encorpada ao recinto). A luz chegou como aviso, mas não fora rápida o suficiente, pois as criaturas esfumaçadas transpassaram, estranhamente, as paredes, portas e teto da estalagem levando o caos para seu interior.

Os sons das canecas tocando as mesas de carvalho, vozes baixas e o belo som do bandolim construíram uma calmaria que fora substituída por gritos de medo e agonia. Os muitos soldados desarmados que se viam naquela situação assustadora e impactante, derrubavam tudo que viam em sua frente enquanto tentavam fugiam desenfreadamente, mas era inútil… Pois o bom tempo que os pobres homens usavam para derrubar mesas repletas de canecas e pratos era inversamente proporcional ao tempo que as criaturas precisavam para atravessar tais obstáculos de forma mundana. A sociedade do escuro ficara completamente rendida às aptidões das sombras, contando (inicialmente) apenas com as magias de Azrael para se manterem protegidos em meio ao caos que tomava conta do lugar. Brandalford subiu imediatamente ao seu quarto para que procurasse algo capaz de auxiliá-lo, enquanto seus companheiros lá embaixo já se viam sucumbindo ao ímpeto sombrio. As criaturas vazias, grotescas e negras atravessavam incorporeamente o corpo de todos ali, causando um mal estar e uma fraqueza febril e nauseante. A situação já estava catastrófica, quando algo fora percebido por Balthar: Um dos soldados desesperado, que gritava rendido ao ser tocado diversamente por uma dessas criaturas, veio a perecer (como muitos ali), mas isso não era o pior… Tais soldados que eram mortos pelas mesmas, assumiam tais formas, tornando-se sombras grotescas tais como as criadoras de todos aqueles infortúnios. Isto é, a cada vida perdida, um inimigo a mais se apresentava.

Balthar fora o primeiro, sofreu tanto com os ataques frios das criaturas, que no fim das contas não possuía sequer força nas pernas para se manter de pé, mantendo-se completamente rendido ao chão. Angus fora o segundo, chegou a espantar uma das criaturas, mas se rendeu ao avanço de outra que drenou quase que por completo sua força vital, deixando-o exausto e avariado. O grandalhão se arrastava com a visão turva enquanto observava, com dificuldade, as muitas mesas, canecas e pratos sendo derrubadas enquanto os soldados tentavam se salvar… Os gritos se misturavam ao som das canecas e garrafas quebrando, causando ecos incômodos em sua cabeça confusa. Alannah tentava se manter oculta atrás do balcão, mas fora percebida por uma das criaturas que investia ferozmente contra ela, cortando o salão com uma forte nuvem de fumaça negra. Rodgar se via cercado e sozinho lá fora, se protegendo como pudera, e Azrael estava prestes a esgotar sua capacidade de conjuração, quando Brandalford desceu de seu quarto e ergueu seu símbolo sagrado pedindo a Tyr a luz necessária para neutralizar a grande massa sombria que assolava o recinto. Uma luz similar a de Rodgar emanou do símbolo de prata erguido por Brandalford, mantendo algumas sombras distantes, e salvando a vida de Alannah, Balthar e uns poucos soldados. O poder da expulsão de Brandalford era forte, mas não o suficiente, e isso quase causou a sua morte… As criaturas que não foram afetadas pelo seu poder, o viram como uma ameaça e avançaram contra ele, desferindo ataques que o fizeram suar frio e sentir cada vez mais a morte se aproximando. A força do pobre paladino fora sugada de forma tão intensa, que ele nada pôde fazer a não ser jogar-se e ver toda sua vida passar diante de seus olhos. A morte parecia à única opção, quando a esperança adentrou aquela estalagem…

A luz da expulsão de Rodgar do lado de fora da estalagem (no início do embate), serviu como um forte sinalizador na noite escura, chamando a atenção de três cavaleiros do norte que rondavam as proximidades. Estes cavaleiros, as pressas, arrebentaram sem receio a porta de madeira da estalagem, erguendo seus símbolos ao mesmo tempo! A forte luz cegou temporariamente a todos ali presente (desde os poucos soldados que sobreviveram, até os membros da sociedade do escudo). Mas, mais do que isso, esta majestosa luminosidade serviu para expulsar do local, todas as criaturas que ali permaneciam (fazendo, inclusive, com que algumas se desintegrassem em uma fumaça enegrecida). Rodgar, do lado de fora, jogou-se ao chão pavimentado e apenas assistiu, com um brilhar nos olhos, a luminosidade intensa transbordando pela porta e janelas da estalagem.Aquelas criaturas atormentadas e perigosas não estavam mais entre eles, e com isso todos respiravam aliviados na medida do possível.

Enquanto dois dos cavaleiros ajudavam os enfraquecidos a se levantar, outro informava a todos que a cidade estava em alerta, pois, ao que parecia, outros ataques ocorreram na mesma noite, em outras vivendas no centro da cidade de cachoeiras. O estalageiro, apavorado, tentava conter a tremor de suas mãos para servir água aos enfraquecidos, enquanto Mallagar, Alannah e Azrael se prontificavam em tentar restabelecer a ordem arrumando o local. Algumas vidas se perderam naquela noite, não só naquela estalagem, como em outros locais da cidade também, e algo no coração enfraquecido daqueles homens dizia que era apenas o começo. Demorou para que a sensação de horror desaparecesse, pois ela era notada freqüentemente nos olhos lacrimejantes dos sobreviventes apavorados daquela estalagem. A noite perdurou em alerta, fazendo com que todos os que estavam ali só fossem levados para seus respectivos lares ao amanhecer. A sociedade do escuro subiu para os quartos acreditando que (perante o conhecimento de Rodgar) estariam bem melhores ao acordar. De fato, isso fora o que aconteceu com todos, exceto o Balthar… Para ele, a dor estava apenas começando!


Author: naldoescritor

Share This Post On

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*