Analfabetismo

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Estávamos em um pequeno grupo a céu aberto em uma tarde nublada de sábado. Juntamo-nos para fazer orações na pracinha centenária da Igreja e falar um pouco sobre Deus para as pessoas. O estranhamento se fez barreira: poucos se aproximaram. Aquela situação rompia o ritmo normal dos passantes do centro. Mas, o medo e a vergonha, logo dispersaram os convidados, reduzindo ainda mais os integrantes a um diminuto grupo de sete indivíduos.

Passado algum tempo, porém, aproximou-se um senhor bastante simpático, já idoso, aparentando ser sexagenário. Passos um tanto lento. Olhar sereno. Chegou de mansinho, sentou-se ao nosso lado para escutar as palavras do coordenador. Os dedos encolhidos de sua mão direita revelavam algum tipo de enfermidade. Talvez, fora vítima de um derrame. Quem sabe vitimado pelo estresse da vida moderna… Não quis entrar em detalhes. Contava histórias engraçadas e agradecia as orações. Dizia-se devoto de São Jorge e Santa Bárbara. Talvez, formara uma imagem sincrética da religião…
Pôs-se a narrar um pouco de sua história. Foi quando falou de um sonho de infância: queria ter tido a oportunidade de estudar e aprender a ler. A surpresa tomou conta de nós. Perguntávamos: como ainda existem no Brasil pessoas que não sabem ler nem escrever?

Em um grupo de universitários as palavras daquele senhor causavam espanto e indignação. Defrontamo-nos com uma realidade cruel, diferente daquilo que é divulgado pelas pesquisas e distinto de nosso mundo acadêmico. Ao que parece, a educação não atingiu a todos…
A verdade é que existem, no Brasil, mais de catorze milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever. Em um país com mais 190 milhões de habitantes, esse número representa pouco menos de dez por cento da população, mas de forma alguma pode ser ignorado, visto que nos coloca em sétimo lugar no número de analfabetos entre os países latino-americanos e o vice na América do Sul, atrás apenas dos bolivianos. Só no Nordeste brasileiro temos quase 20% da população nessa situação, o equivalente a oito milhões de indivíduos. O número de iletrados ainda é maior entre a população masculina (10%) e vinte e seis por cento dos idosos do país não são alfabetizados.

Aquele pobre senhor, que tínhamos diante de nossos olhos, era exemplo vivo das estatísticas. Não era um número. Tratava-se de uma pessoa real que se sentia envergonhada por não ter sido iniciada no universo das letras. Ele traduzia a realidade de muitas pessoas que não tiveram oportunidade de estudar porque desde cedo tiveram que trabalhar. Afinal, como conciliar o sustento e o saber? Como superar o cansaço decorrente da longas jornadas de trabalho diárias? Como manter a auto-estima quando se é privado da dignidade, quando se é visto como inferior?

O alfabeto criado há uns três mil anos ainda não é dominado por todos… No mundo, mais de oitocentos milhões e meio de pessoas (20% da população do planeta) são analfabetos, mais de sessenta por cento são mulheres. Privar o outro da educação é podar seu potencial. O mundo é hostil para os iletrados que sofrem preconceito e são manipulados. Eles têm olhos, mas não podem ver. Dizia um filósofo famoso que o mundo tem o tamanho de minha linguagem… enquanto umas contemplam horizontes longínquos, outros sofrem de miopia… Diziam os antigos que dominando as letras, reconstruiríamos o mundo… Parece verdade.

Às vezes, penso que não saber ler é melhor remédio… Fechar os olhos a uma realidade horrível que nos bate aporta todas vezes que abrimos um jornal ou uma revista para ler… Mas, aí recordo que a alfabetização é uma dádiva… porque através dela posso encontrar aquele Cristo, em forma de texto, naquele Livro que pode transformar não só a realidade social do ser humano, mas sua vida como um todo.

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Author: SergioGleiston

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