Amigas

Esta pequena história que se entrelaça na minha língua, formando palavras soltas, rebenta em gargalhadas quando nos juntamos uma ou outra vez por ano. Fizeramos uma promessa com os mindinhos cruzados, como que um 8 deitado…seria o nosso símbolo do infinito, o de passar a vida inteira juntas, sempre com aquele espírito frutuoso e fresco da adolescência.

Conhecemo-nos num vão de escadas, num qualquer arraial dos Santos Populares. Frequentávamos a mesma escola, morávamos no mesmo bairro, mas sem sermos religiosas foi no seio das escadas de uma Igreja que traçámos uma longa caminhada, e decidimos prolongar uma amizade. A partir daquele lusco-fusco, passámos praticamente todas as manhãs juntas nos recreios daquela escola detestável, partilhávamos infinitos copos de água e tremoços naquele café, até já não haver tempo para queimar, e sermos “convidadas” a abandonar a mesa que abraçávamos possessivamente, como nossa! Chegávamos a casa, e ainda teríamos muito para partilhar ao telefone. Foram muitas as vezes que ficávamos deitadas no chão das nossas casas, agrafadas ao telefone, apenas em silêncio… para logo a seguir nos rirmos em cumplicidade, por já não haver nada para dizer. Bastava sentirmo-nos umas às outras do outro lado da linha. Respirávamos, ainda verdes uma amizade que perduraria no tempo.

É engraçado olhar para trás e perceber a intensidade, quase obsessiva da nossa amizade, e em simultânea verdade a força do tempo. Aquele mesmo tempo que respirávamos em comum transformou quase invisíveis 17 anos de convivência. Apercebemo-nos que em vez de calçado biqueira de aço, roupa preta, saias hippies, tops que deixavam despidas as nossas barrigas lisinhas são agora a roupa discreta e formal que não nos caracteriza a alma.

A importância pelo pormenor tornou-se numa premissa de vida, e tornámos raros os momentos em que conviveríamos com efemeridades. O tempo juntas tornou-se proporcional ao espaço (esgotado) em que vivemos, aquele quotidiano que caracteriza a vida de todas as pessoas sem tempo. Adaptámos a nossa realidade a uma abstracção que mantém viva a nossa cumplicidade: a memória acesa da nossa espontaneidade, e a emoção viva da presença que já não é diária. Por isto, a nossa convivência será sempre íntima, mesmo que voltem a passar por nós mais 17 anos sem tempo.

Estas palavras são o eco de três amigas que não deixam calar o valor absoluto da amizade.


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One comment

  1. Jeny /

    Sem palavras…

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