Alguns problemas em torno da Práxis

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Introdução

Esta síntese tem como objetivo partilhar as principais idéias da segunda parte da obra “Filosofia da Práxis” de autoria de Adolfo Sánchez VÁZQUEZ, mais precisamente da parte em que o autor discute “Alguns problemas em torno da práxis”.

Esta segunda parte da obra está dividida em sete seções, das quais faço alusão a três nesta síntese (as três primeiras).

1ª. O QUE É A PRÁXIS

Vázquez inicia esta seção apresentando conceitualmente a diferença entre atividade e práxis, afirmando que “toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis” (p. 219). Explica logo que a atividade (em geral) é um conjunto de atos em virtude dos quais um sujeito ativo (agente) modifica uma matéria-prima dada. Portanto, a atividade, por sua generalidade, não especifica (p. 220):

• o tipo de agente (físico, biológico ou humano);
• a natureza da matéria-prima sobre a qual atua (corpo, ser vivo, vivência psíquica, relação ou instituição social);
• a espécie de atos (físicos, psíquicos, sociais) que levam a certa transformação;
• seu resultado (o produto) se dá em diversos níveis (nova partícula, um conceito, um instrumento, uma obra artística ou um novo sistema social).

Para o autor, só podemos falar em atividade se esta se referir a atos singulares que se articulam e estruturarem, como elementos de um todo, ou de um processo total, que desemboca na modificação de matéria-prima (p. 220). E também se esta se traduzir em um produto: o resultado dessa matéria transformada pelo agente.

Vázquez, ainda caracterizando a atividade, refere-se a esta dizendo que ela é humana apenas quando se verifica que os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou fim, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real.

Segundo o autor, isso acorre devido a intervenção da consciência, graças a qual, o resultado que o sujeito deseja existe duas vezes e em tempos distintos: como resultado ideal e como resultado real. Segundo essa compreensão, primeiro o homem idealiza o resultado como produto da consciência. O sujeito, portanto, age conforme o ideal formado e pensado em sua consciência, sua busca pelo real toma como ponto de partida o ideal formado em sua consciência. Vázquez, com base nessa compreensão, afirma categoricamente: “Desse modo, para que se possa falar de atividade humana é preciso que se formule nela um resultado ideal, ou fim a cumprir, como ponto de partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasme, definitivamente, o modelo ideal originário” (p. 221). Segundo o autor, é esse fato que dá um caráter consciente a atividade humana. Confirma essa afirmação assegurando que “toda ação verdadeiramente humana exige certa consciência de um fim, o qual se sujeita ao curso da própria história” (p. 222).

O autor esclarece ainda que essa atividade de produção de um fim (ideal) como motor da sua ação não é produto apenas da consciência, é produto também do conhecimento, que se expressa na forma de conceitos, hipóteses, teorias ou leis mediante as quais o homem conhece a atua na realidade (p. 222). É assim que ele fala em atividade cognoscitiva – através da qual o homem procura conhecer a realidade; e em atividade teleológica – onde o homem projeta em sua mente ou consciência uma realidade futura.
Vázquez diz que ambas as atividades são obra da consciência e formam uma unidade indissolúvel. Ambas têm um caráter teórico, mas a teoria, por si só, não leva a uma transformação da realidade, pois a consciência não ultrapassaria seu próprio âmbito. Nesse caso, o autor conclui, tanto a atividade cognoscitiva como a atividade teleológica, apesar de serem atividades, “não são, de modo algum, atividade objetiva, real, isto é, práxis” (p. 225).

O autor, referindo-se diretamente a Marx, em as “Teses sobre Feuerbach”, arremata então: “sem essa ação real (práxis), objetiva, sobre a realidade – natural e humana – que existe independentemente do sujeito prático, não se pode falar propriamente de práxis como atividade material consciente e objetivamente; portanto, a simples atividade subjetiva –psíquica – ou meramente espiritual que não se objetiva materialmente não se pode considerar como práxis” (p. 226).

Formas de Práxis

Depois de se referir a definição e distinção entre atividade e práxis, sobre a adequação aos fins, sobre os tipos de atividades, Vázquez chama a atenção para as formas de práxis, destacando o fato de que o objeto sobre o qual o sujeito exerce sua ação pode ser: a natureza; produtos de uma prática anterior; o próprio homem, tomado socialmente ou como indivíduos concretos (p. 226). Assim, define as seguintes práxis:

a) Práxis Produtiva: definida como ação do homem que, mediante o trabalho, “vence a resistência das matérias e forças naturais e cria um mundo de objetos úteis que satisfazem determinadas atividades” (p.226). Esse processo só se realiza em determinadas condições sociais, ou seja, dentro de um contexto de “relações de produção”. Nessa relação material e transformadora que se dá pelo trabalho, o homem modifica a natureza e é modificado por ela. Nesse sentido, Vasquez defende: “a práxis produtiva é, assim, a práxos fundamental porque nela o homem não só produz um mundo humano ou humanizado, no sentido de um mundo de objetivos que satisfazem necessidades humanas e que só podem ser produzidos na medida em que se plamam neles fins ou projetos humanos, como também no sentido de que na práxis produtiva o homem se produz, forma ou transforma a si mesmo” (p. 229).
b) Práxis Artística: é a ação de transformação de uma matéria à qual se imprime uma determinada forma, exigida, não mais por uma necessidade prático-utilitária, mas por uma necessidade geral humana de expressão e comunicação.
c) Práxis Experimental: é a práxis que atende o objetivo ou a necessidade de investigação teórica e, em particular, as da comprovação de hipóteses. O fim imediato dessa práxis é teórico.
d) Práxis Política: é a atividade, cujo alvo e sujeito é o próprio homem, tomado não isoladamente, mas como grupos, classes sociais; são os atos orientados para mudar as relações sociais, econômicas e políticas. São as ações voltadas para a transformação da organização e da direção da sociedade. Segundo Vázquez, a política compreende a luta de classe pelo poder, a direção e estruturação da sociedade, de acordo com os interesses e fins correspondentes. Essa prática apresenta três exigências (p. 231): 1) é uma atividade prática, na medida em que a luta travada pelos grupos ou classes está vinculada a certo tipo de organização real de seus membros; 2) requer formas, meios e métodos reais, efetivos de luta; 3) a atividade política gira em torno de conquista, conservação, direção e controle de um organismo concreto, como é o Estado. O autor explica ainda que a práxis política alcança sua forma mais alta na práxis revolucionária como etapa superior de transformação prática da sociedade (p. 232), pois ela é que muda radicalmente as bases econômicas e sociais em que se assenta o poder material e espiritual da classe dominante e instaurar, assim, uma nova sociedade.

Vázquez encerra essa seção fazendo referência a atividade teórica e à relação entre filosofia e práxis.

O autor defende que a atividade teórica só tem sentido quando relacionada com a prática, já que nela encontra seu fundamento, seu fins e critérios de verdade (p. 232). Afirma que só a “atividade teórica por si só não mostra os traços que consideramos privativos da práxis, e, por isso, não devemos colocá-la no mesmo plano que as formas de atividade prática que antes examinamos” (p. 232). Ela, sozinha, segundo o autor, não transforma a realidade, ainda que ela transforme percepções, representações ou conceitos, e crie o tipo peculiar de produtos que são as hipóteses, teorias, leis, etc.

O autor, para fundamentar seu ponto de vista a respeito do caráter subjetivo e à existência ideal da atividade teórica, lembra as “Teses sobre Feuerbach”, onde Marx critica Feuerbach justamente por conceber a relação sujeito-objeto (ou homem-natureza) como uma relação meramente contemplativa, ou seja, teórica. Explica o autor que Marx não considera a teoria uma forma de práxis (p. 233), pelo contrário, faz uma distinção entre uma e outra., fala, inclusive, do “concreto pensado” e do “concreto real” para fazer referência a uma e a outra, respectivamente (“Introdução a crítica da economia política”).

Por fim, quanto a relação filosofia e práxis, Vázquez defende que a atividade filosófica transforma a concepção do mundo, da sociedade ou do homem, mas não modifica – direta e imediatamente – nada real. Faz essa defesa, considerando que existem filosofias que se limitam a tentar explicar o existente e que desembocam, uma conciliação do pensamento com a realidade (Hegel) e filosofias que servem à transformação do mundo (de acordo com a Tese XI de Marx sobre Feuerbach). Segundo o autor, nestas últimas se situaria a filosofia marxista.

2ª. UNIDADE DA TEORIA E DA PRÁTICA

Nesta segunda longa seção, Vázquez investiga de modo mais detalhado a relação entre teoria e prática, refletindo sobre as concepções que estabelecem uma oposição entre ambas, fazendo referência a consciência comum e ao pragmatismo; insiste no fato de que a prática é o fundamento da teoria; analisa a relação entre ciência e produção, defendendo que é o desenvolvimento das forças produtivas, considerado em seus contextos históricos, o parâmetro para avaliar o papel e o desenvolvimento da ciência, fato que se apresenta de maneira ampla na época moderna., quando se incrementa a produção material em estreita conexão com o nascimento e ascensão da burguesia (p. 244 e 245); aprofunda a questão da unidade da teoria e da prática revolucionária (p. 249), discutindo os falsos modos de como se compreende a práxis na relação teoria-prática e prática-teoria; finaliza a seção analisando a prática como critério de verdade e como atividade subjetiva e objetiva (p. 261-264).

Na síntese desta seção, faremos destaque aos seguintes pontos: “o ponto de vista do “senso comum” e o pragmatismo”, “a prática como fundamento da teoria”, “unidade da teoria e da prática revolucionária”, “práxis e compreensão da práxis”, “a práxis como critério de verdade” e “a prática como atividade subjetiva e objetiva”.

i) O ponto de vista do “senso comum” e o pragmatismo

Vázquez retoma a afirmação que de que a atividade teórica, por si só, não é práxis, e que, quando a teoria permanece em seu estado puramente teórico, esta acaba negando a práxis, estabelecendo-se uma contraposição entre teoria e prática.

Partindo dessa problematização, o autor afirma de antemão que a oposição entre teoria e prática tem um caráter relativo e que, na verdade, o que existe não é bem uma oposição e sim uma diferença. Explica que essa oposição existe quando se pensa a relação teoria e prática em falsas bases, seja porque a prática tende a se desligar da teoria, seja porque a teoria se nega a vincular-se conscientemente com a prática (p. 240). O autor se debruça em torno dessas falsas bases.

Primeira falsa base: é a concepção da consciência comum, que compreende o prático como algo estritamente utilitário, contrapondo-se absolutamente à teoria. Segundo o autor, o senso comum não considera os ingredientes da teoria, pois entrega-se ao ditames ou exigências de uma prática esvaziada, firma-se em torno dos preconceitos, das verdades estereotipadas e, em alguns casos, nas superstições de uma concepção irracional (mágica ou religiosa) do mundo. Portanto, o senso comum é a-crítico em relação a prática; a teoria é vista como algo perturbador (p. 240)

Segunda falsa base: a concepção do pragmatismo, doutrina filosófica que também tem um modo de conceber a relação teoria e pratica. Segundo Vázquez, o praticismo do pragmatismo se expressa na concepção da verdade, onde a verdade está associada ao que é útil, reduzindo a prática ao que é utilitário. Segundo essa visão, o conhecimento só é válido na medida em que é útil. A verdade, advinda do conhecimento, é posta em relação as nossas crenças, crenças estas que são mais vantajosas. O autor explica que, nessa visão, a verdade fica subordinada a nossos interesses, ao interesse individual de cada um, não concordando, portanto, com a realidade que nosso conhecimento reproduz. Esclarece o autor que, ao contrário, para o marxismo, o conhecimento verdadeiro é útil, na medida em que, com base nele, o homem pode transformar a realidade: “o verdadeiro implica um reprodução espiritual da realidade, reprodução que não é um reflexo inerte, mas sim um processo ativo que Marx definiu como ascensão do abstrato ao concreto em e pelo pensamento, em estreita vinculação com a prática social” (p. 242).

ii) A prática como fundamento da teoria

O autor aprofunda a relação entre teoria e prática, chamando a atenção para o fato de que a primeira depende da segunda, pois a prática é o fundamento da teoria, visto que ela determina o horizonte de desenvolvimento e progresso do conhecimento (p. 243).

A citação de Engels pelo autor é esclarecedora dessa compreensão:

“Até agora, tanto as ciências como a filosofia menosprezaram completamente a influência que a atividade do homem exerce sobre seu pensamento e conhecem apenas, de um lado, a natureza, e de outro, o pensamento. Mas o fundamento mais essencial e mais próximo do pensamento humano é, precisamente, a transformação da natureza pelo homem, e não a natureza por si só, a natureza enquanto tal, e a inteligência humana foi crescendo na mesma proporção em que o homem ia aprendendo a transformar a natureza” (p. 243).

O autor mostra, pois, que o conhecimento científico-natural avança no processo de transformação do mundo natural em virtude de que a relação prática que o homem estabelece com ele, mediante a produção material, coloca-lhe exigências que contribuem para ampliar tanto o horizonte dos problemas como das soluções. Vázquez então conclui: “com base nos conhecimentos empíricos acumulados durante milênios surgem os germens de um conhecimento teórico e formam-se as categorias lógicas indispensáveis para isso: as de qualidade, quantidade, espaço, tempo e causalidade” (p. 244).

iii) Unidade da teoria e da prática revolucionária

Para refletir sobre a unidade entre a teoria e a prática revolucionária, no campo da vida social, Vázquez retoma a teoria revolucionária de Marx e Engels, fazendo alusão a obras marxistas como o Manifesto Comunista de 1848 (onde Marx estabelece a tese da revolução proletária como culminação historicamente necessária da luta de classes do proletariado com a burguesia, formula as tarefas concretas que este terá de levar a cabo e o modo de exercer sua missão revolucionária mediante a criação de suas organizações políticas e o estabelecimento do poder político), A Ideologia Alemã, Revolução e contra-revolução na Alemanha (1851), A luta de Classe na França (1850), dente outras obras.

O autor remete-se a essas obras para ressaltar, na teoria marxista, o papel determinante desempenhado pela prática social em seu nascimento e desenvolvimento; para destacar a estreita relação da teoria revolucionária com a atividade prática, que vai se enriquecendo na própria luta revolucionária do proletariado; para mostrar que a teoria revolucionária é forjada não só a partir da leitura prévia da realidade e das condições históricas e sociais dos trabalhadores, mas também do estudo da atividade prática revolucionária dos trabalhadores alemães, ingleses, franceses contra a burguesia; para evidenciar, na doutrina sobre o estado e a revolução elaborada por Marx e Engels, a vinculação entre teoria e prática e os limites destas avaliada por Lênin em O Estado e a Revolução (p. 250-252)

O autor revela que na base dos estudos de Marx e Engels, em sua evolução, a busca pela unidade entre teoria e prática é constante, o que fica patente na obra O Capital, o que leva Vázquez a afirmar:

Toda leitura de O Capital que não veja, em última instância, uma teoria fundada não só na prática produtiva peculiar do capitalismo, mas determinada,por sua vez, pela necessidade da práxis revolucionária do proletariado, estabelece um divórcio entre a teoria e a prática, posto que deixa de ver o que era essencial para Marx,: a teoria como fundamento científico da substituição revolucionária do capitalismo pelo socialismo e da missão histórica do agente dessa transformação: o proletariado (p. 253)

iv) Práxis e compreensão da práxis

O autor explica que também se interpreta falsamente a unidade teoria e prática quando se nega a autonomia relativa da primeira. Quando, sobretudo, se pensa que a prática se torna teórica por si mesma, partindo do pressuposto de que a prática deixa transparecer por si só sua racionalidade ou sua verdade (p. 257).

Uma forma de administrar esse problema, conforme o autor, é, primeiro, considerar que a questão da unidade entre teoria e prática só pode ser formulada quando temos presente a prática como atividade objetiva e transformadora da realidade natural e social, e não qualquer atividade subjetiva; segundo, entender que existe a práxis e a compreensão da práxis. O autor, com base na tese VIII de Marx, esclarece que compreender a prática é explicitar sua racionalidade, é perceber e entender sua linguagem, as categorias a ela correspondentes. Com base no autor, chega-se a conclusão de que a compreensão da práxis exige o domínio e o manejo de instrumentos teóricos de modo a explicitar e explicar os conteúdos e a racionalidade dessa prática. Confirmando essa conclusão, citamos o próprio Vázquez:

As lutas do proletariado (portanto, suas práticas) não permitem por si sós, que se alcance a compreensão da necessidade histórico-social da revolução proletária e da missão histórico-universal da classe operária. Só a transformação do socialismo de utopia em uma ciência e o manejo do instrumental teórico correspondente permitiriam ao proletariado e, particularmente, à sua vanguarda mais consciente, alcançar a compreensão de sua própria práxis revolucionária (p. 258).

Assim, com base no autor, concluímos que a prática e a teoria não se identificam, a primeira (a prática) exige uma relação teórica com a segunda (teoria), processo que se dá pela compreensão da práxis (p. 259).

v) A práxis como critério de verdade

O autor chama a atenção neste item para um outro perigo: o de negar a prática como critério de verdade, fato, segundo autor, incompatível com a concepção marxista da práxis. O autor afirma que a prática só é critério de verdade na medida em que ela estabelece uma relação com a teoria, pois, segundo Vázquez, a prática não fala por si mesma e seu critério de verdade não se verifica de modo direto e imediato (p. 259). O autor, nesta citação, deixa essa compreensão mais clara:

Foi a prática do movimento operário e das revoluções de nosso século que confirmou, por exemplo, os aspectos essenciais da teoria marxista da missão histórico-universal do proletariado, ainda que para estabelecer essa confirmação tenha sido necessária uma relação teórica (análise, interpretação adequada) dessa prática (p. 259)

Portanto, com o autor afirmamos que buscar a verdade somente na teoria, mesmo que essa atividade seja chamada de práxis teórica ou científica, é abandonar uma tese fundamental do marxismo e substituí-la pela velha tese idealista com o marxismo rompeu (p. 260).

vii) A prática como atividade subjetiva e objetiva

O autor retoma a assertiva de que a práxis é uma atividade teórico-prática, isto é, tem um lado ideal, teórico, e um lado material, propriamente prático. Na citação abaixo o autor fala das duas dimensões da práxis: a dimensão subjetiva e a dimensão objetiva:

A atividade do sujeito prático nos é oferecida nessa dupla vertente: por um lado, é subjetiva enquanto atividade de sua consciência, mas, em um sentido mais restrito, é um processo objetivo na medida em que os atos ou operações que executa sobre uma dada matéria que existe independentemente de sua consciência, de seus atos psíquicos, podem ser comprovados inclusive objetivamente por outros sujeitos. Por isso, na medida em que: a) se exerce sobre uma realidade independente da consciência; b) mediante um processo, meios e instrumentos objetivos; c) dando lugar a um produto ou resultado objetivo, pode-se dizer que a atividade prática do homem é objetiva (p. 262).

Conclui assim o autor que “a atividade prática é simultaneamente subjetiva e objetiva, dependente e independente de sua consciência, ideal e material, e tudo isso em unidade indissolúvel” (p. 262).

3ª. PRÁXIS CRIADORA E PRÁXIS REITERATIVA

Nesta seção, o autor trata dos diferentes níveis da práxis, considerando que o homem, através de suas práticas, apresenta diferentes formas de penetração da consciência nesse processo prático e com certo grau de criação ou humanização da matéria. Nesse sentido, Vázquez caracteriza a práxis criadora, a práxis reiterativa ou imitativa, e a práxis burocratizada. Vamos direto à caracterização de cada uma dessas práxis.

Práxis Criadora

Segundo o autor, a práxis criadora é inerente à práxis humana, visto que ela lhe permite enfrentar novas necessidades e construir novas soluções. O homem vive, portanto, em um constante estado criador (p. 267). A práxis é, segundo autor, essencialmente criadora. A práxis criadora articula-se à repetição até o momento em que a vida reclama uma nova criação. Esse fato revela que o homem não vive em constante estado criador. O autor explica que, no processo criador, duas atividade são indissolúveis: a atividade da consciência e sua realização, onde o subjetivo e o objetivo, o interior e exterior se movem de forma constante. Porém, essas dimensões e as atividades dela decorrentes não podem ser tomadas de maneira estáticas, pois, segundo Vázquez, essas dimensões se interpenetram e se apóiam num todo dinâmico (p. 268).

Vázquez, considerando essa interdependência e autonomia dessas dimensões, apresenta os traços distintivos da práxis criadora:

a) Unidade indissolúvel, no processo prático, do subjetivo e do objetivo;
b) Imprevisibilidade do processo e do resultado;
c) Unidade e irrepetibilidade do produto.

Práxis Reiterativa

Segundo o autor, essa práxis se “caracteriza precisamente pela existência de três traços apontados anteriormente, ou por uma débil manifestação dos mesmos” (p. 274). O autor, com base nessa afirmação, aponta as características dessa práxis (p. 274 e 275):

• Há um rompimento da unidade do processo prático, uma vez que o projeto, o plano, o fim preexiste de um modo acabado;
• O subjetivo se dá como uma espécie de modelo ideal platônico que se realiza, dando lugar a uma cópia ou duplicação – ideal traçado sempre se confirmará, pois ele só considera o real enquanto for adequada ao ideal;
• O ideal é um produto acabado já de antemão, e não deve ser afetado pelas mudanças do processo prático;
• O campo do imprevisível é estreito na práxis reiterativa, pois a lei que governa o processo prática já está definida a piori;
• Parte sempre de uma prática criadora já existente, da qual toma a lei que a rege;
• Não provoca uma mudança qualitativa na realidade presente, não transforma criadoramente, ainda que contribua para criar a área do já criado;
• Não cria, não faz emergir uma nova realidade humana.

A Práxis Burocratizada

Vázquez caracteriza essa práxis chamando a atenção para os seguintes elementos;

• A exterioridade ou formalização da prática, onde a forma, extraída de um processo anterior, aplica-se mecanicamente a um novo processo;
• Os atos práticos nada mais são do que roupagem ou capa com a qual se reveste uma forma que já existe, como um produto ideal acabado.

O autor explica que a prática se burocratiza onde quer que o formalismo domine, ou mais exatamente, onde o formal se converte em seu próprio conteúdo. Na prática burocrática temos uma espécie de “ditadura” do conteúdo sobre a forma, do ideal sobre o real, etc. Esse tipo de práxis, segundo o autor, pode materializar-se em várias outras práticas: numa prática social-estatal, política, cultural, educativa, etc, embora reconheça que o burocratismo é também um traço essencial do Estado opressor e explorador da sociedade dividida em classes antagônicas. A marca principal desse burocratismo é o divórcio do povo, do controle e da participação popular, opõe-se portanto à verdadeira forma democracia (p. 278).

Vázquez, faz referência ainda a práxis reiterativa relacionando-a ao trabalho humano, sobretudo nas formas específicas que adota com o trabalho em cadeia, parcelado, ou na produção em série, destacando seus aspectos negativos.

O autor reconhece que a produção mecanizada, que em grande medida se assenta na prática reiterativa, incrementou enormemente a produtividade do trabalho e, nesse sentido, acredita que foi altamente positivo para o desenvolvimento da sociedade. Apesar dos aspectos positivos que essa produção trouxe, o autor destaca os aspectos negativos, impostos pela crescente divisão e especialização do trabalho (p. 280):

• A perda do caráter universal do trabalho;
• A fragmentação do trabalho em uma série de operações parciais;
• A ruptura da unidade do processo prático de trabalho, etc.

Da mesma forma, reconhece que a automatização é um processo irreversível em nossa sociedade que implica não só em progresso técnico como também humano e social. Esclarece que esse processo se deve a divisão social do trabalho do trabalho, que tornou possível a elevação da produtividade e o incremento da forças produtivas, condição básica do progresso social em todas as ordens (p. 281). Com base nessa compreensão o autor afirma (p. 281):

A divisão social do trabalho é necessidade objetiva inerente a todo modo de produção e,por isso, também não poderá desaparecer na sociedade comunista. O que muda e desaparece são as formas históricas dessa divisão – de acordo com o respectivo modo de produção – que impõe aos homens determinada forma de atividade.

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Author: Osmar Braga

É pedagogo, pós-graduado em educação, professor universitário, possui grande vivência na área social, principalmente com projetos sociais, presta consultorias a ONGs, organizações sociais e comunitárias, grupos e redes juvenis, é amante e militante da Educação Popular.

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1 Comment

  1. gostaria de obter as referências bibliográficas desse livro

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