A formação do professor como professional reflexivo

[ad#osmarbraga]

No texto que ora introduzo, objetivo discorrer sobre a formação do professor como profissional reflexivo. Antecipo, desde logo, que tomarei o tema como dois pólos, sendo o primeiro a formação, e o segundo, o professor reflexivo. Pelo que se percebe, o segundo pólo depende do primeiro, pois é a formação que “produz” o professor reflexivo (ou não).

Para desenvolver o tema, penso, pois, ser importante, como primeira parte do texto, falar sobre a formação como um processo polissêmico e complexo, determinante na formação do profissional da educação, explicitando minha compreensão sobre este subtema, condição fundamental para adentrar na segunda parte do trabalho: o professor como profissional reflexivo. Nesta segunda parte, adentro na discussão sobre o professor como profissional reflexivo, discorrendo sobre sua identidade, sentido e caracterização.

No final do texto, apresento minhas conclusões na última parte do trabalho: nas considerações finais.

1. A formação como um processo polissêmico e complexo

Não há como pensar em qualquer profissional da educação sem fazer referência à sua formação. Da mesma forma, não é possível construir uma identidade docente sem que o profissional vivencie algum processo de formação, seja ele pessoal ou coletivo. Portanto, a formação é algo inerente à identidade e à atuação do profissional da educação.

Mas, o que entendemos por formação? Que tipo de formação os profissionais da educação precisam?

Esta pergunta tem sido objeto de reflexão de muitas pesquisas acadêmicas, o que revela que é um tema instigante e bastante atual.

Neste trabalho, como estamos pensando a formação voltada para a “produção” de um profissional reflexivo, partimos de um pressuposto básico: o de que toda a formação se assenta numa determinada concepção de sociedade, de ser humano e de escola. Há pelos menos três concepções político-filosóficas, todas portadoras de uma determinada visão de sociedade, ser humano e escola: visão positivista, liberal-reformista e dialética. Cada uma dessas concepções impacta a escola e seus atores – alunos, professores, gestores, cordenadores, funcionários, comunidade – produzindo uma determina abordagem e prática pedagógica.

Saviani, Libânio e Luckesi, para cada concepção acima, apresentam uma tendência pedagógica: a concepção positivista vai originar a pedagogia tradicional; a concepção liberal-reformista produz as tendências conhecidas como renovada progressivista, renovada não-diretiva e a tecnicista; e a concepção dialética vai originar a pedagogia libertadora, libertária e histórico-crítica.

As características pedagógicas e as práticas de ensino-aprendizagem de cada uma dessas tendências são bastante conhecidas. Como nosso foco aqui é a formação, não vamos nos debruçar sobre diretamente sobre elas.

Considerando, pois, as principais concepções político-filosóficas, acima apresentadas de forma abreviada, podemos dizer que não é qualquer formação que “constrói” um professor reflexivo. Acreditamos que ele é fruto de um processo de formação que entende a sociedade, o ser humano e a escola na perspectiva histórica e dialética, isto é, situados histórica, social e culturalmente, integrantes de uma estrutura política e social mais ampla: a sociedade capitalista e suas contradições e conflitos. Com isso, queremos dizer que a formação, segundo a perspectiva dialética, passa a ser concebida como um processo polissêmico, complexo, sócio-histórico e crítico, onde a história de vida do professor, a construção da identidade profissional e sua prática pedagógica são elementos centrais tomados de forma contextualizada, como objetos de reflexão e aprendizagem das competências, habilidades, experiências e saberes necessários à atuação docente.

Não é à toa que se fala, dentro da sociedade capitalista atual e do contexto escolar, da necessidade de um professor reflexivo. Podemos perguntar: por quer precisamos de um professor reflexivo? Por que precisamos de um profissional reflexivo? Este é o ponto seguinte de nossa reflexão.

2. O professor como profissional reflexivo

Ora, precisamos do professor reflexivo porque entendemos que, para enfrentar os desafios da sociedade capitalista, do ensino tradicional e reformista que contribui para reproduzir ou manter as contradições sociais, impedindo as mudanças sócio-político-culturais e socioeconômicas nesta sociedade, é necessário um profissional e um intelectual capaz de interferir dentro desta sociedade, ser um agente da história, que não reproduz apenas o conhecimento, mas que faz do seu trabalho um espaço de transformação social. Então, o professor reflexivo é um profissional que entende sua prática como práxis, isto é, como ação crítica e refletida de sua ação, assumindo-se como um agente de mudanças na sociedade e na escola.

Nesse sentido a formação docente faz-se pelo trabalho de reflexão crítica sobre a prática pedagógica, a realidade, a fundamentação teórica estudada, bem como pela reconstrução permanente da identidade pessoal e profissional. A reflexão crítica se dá pela partilha de saberes e pela educação continuada, num processo polissêmico e de busca constante do sentido e significado da emancipação humana, superando uma atuação estritamente técnica, ancorada no horizonte e na utopia de uma sociedade diferente.

A idéia do professor reflexivo foi desenvolvida por SHON e se assenta na valorização da epistemologia da prática nos processos de desenvolvimento profissional do professor. Mas outros autores a aprofundaram, chamando a atenção para os elementos que configuram o processo da reflexão:

• A reflexão tem a ver com pensamento e ação, nas situações históricas e realis em que nos encontramos;
• A reflexão não é um trabalho individual, pressupõe relações sociais;
• A reflexão não é neutra, serve a interesses humanos, sociais, culturais e políticos;
• A reflexão não é indiferente e passiva em relação aos problemas de ordem social;
• A reflexão não é um processo, nem tampouco um processo puramente criativo à construção de novas idéias; é uma prática que expressa nosso poder de reconstruir a vida social em que estamos inseridos.

estudo-didatica

Considerações Finais

No primeiro ponto deste texto, explicitei a visão sobre a formação, situando-a no contexto das concepções sobre a sociedade, destacando que o professor reflexivo é fruto de uma concepção que concebe a sociedade de forma crítica e dialética, compreendendo suas contradições e formas de reprodução dessas contradições na escola e na prática docente.

Na segunda parte, detive-me sobre a importância e o caráter do profissional reflexivo, caracterizando de forma sintética o significado do que é ser um profissional reflexivo.

A partir do exposto, é possível inferir algumas conclusões, as quais pontuo a seguir:

• A formação docente precisar ser entendida não apenas como o conjunto de atividades onde o profissional recebe conteúdos e procura incorpora-los à prática decente. Ela precisa ser entendida como um processo permanente, fundado numa concepção dialética da sociedade, que articula vivências, experimentação e atividades práticas e teóricas, implicando na construção de competências, habilidades, atitudes, onde o profissional vai compreendendo e assumindo a ação docente como uma prática social, ou seja, como práxis: como ação e reflexão;
• A reflexão não pode ser entendida como algo neutro, apesar de toda ação docente, independente na corrente pedagógica que a sustenta, pressupor a reflexão. A reflexão na ação docente é uma prática social implicada, visto que o profissional não pensa para si e sobre si, mas sobre si, sobre determinada realidade social, política, cultura e econômica, reflexão essa que assume determinada intencionalidade e direcionalidade, confirmando ou negando uma perspectiva social. A reflexão é um dos elementos da práxis e só se completa na ação, ponto de partida e ponto de chegada dessa atitude política.
• O profissional reflexivo é um intelectual em processo contínuo de formação. Na ação docente, a formação deve cuidar e articular três elementos centrais: história de vida, teoria e prática pedagógica e intervenção sociopolítica. E deve ter como objetivo contribuir para que o profissional da educação se torne um agente da história, um eterno aprendiz, capaz de construir permanentemente sua identidade pessoal e profissional e sua intervenção política no espaço escolar e na sociedade.

[ad#osmarbraga]

Author: Osmar Braga

É pedagogo, pós-graduado em educação, professor universitário, possui grande vivência na área social, principalmente com projetos sociais, presta consultorias a ONGs, organizações sociais e comunitárias, grupos e redes juvenis, é amante e militante da Educação Popular.

Share This Post On

Comentários

O seu endereço de email não será publicado.