A casa que o meu país não abraçou

Faço a barba sem medo, quase de olhos fechados, apesar da lâmina que já devia ter substituído há dois meses. Com um rasgo de coragem saio da casa que não pago há meses, e deixo para trás as reminiscências, que só voltarei a ver ao fim-do-dia, no espelho em que me debruço e não me reconheço. Saio com uma disfarçada calma, que não é mais que fraqueza. Mas, todos me julgam um homem bom… de poucas palavras, mas sério e calmo. E, assim, me deixo guiar para mais uma curta, mas impaciente caminhada.

A fábrica fechou. Foram estas as palavras que sugaram as últimas forças que as minhas pernas já mal sustentavam. Senti-me desfalecer por inteiro, mas ainda assim continuei. Escutei como que em eco: o homem continuou, como se nada fosse… Acenou, e seguiu com a sua calma de sempre.

Estou desesperado, e sigo surdo naquele passeio mal calcetado, e gasto pelos sapatos daquela minha gente. As minhas raízes apodreciam dentro de mim, ao mesmo tempo que caminhava sem vontade. Recolho-me numa paragem de autocarro retocada de avaros graffitis, gatafunhados por jovens que se calculam livres, encarando a democracia como desculpa para a sua irreverência. Esquecem-se que a liberdade alcançada no passado, apenas se traduz numa abstracção presente, em que as oportunidades de igualdade não são mais que  assimetrias no proveito final… Inquieto-me, por este juízo de valor, e cogito comigo próprio, no intuito de afastar a realidade, consagrando-me em frases perdidas, que não me levam a lado algum. O pensamento só é uma linha estratégica quando disseca comportamentos e desencadeia mudança na atitude. Subitamente neste diálogo intrínseco, lanço os meus olhos num flyer com oferta de emprego colado numa das paredes da paragem do autocarro…

Estou numa estação de comboios. Passaram 7 dias para conseguir estar aqui. Muitos anos passaram para perceber que só teria esta senda, o próprio rumo para não matar a esperança. Tenho a sensação que passarei de sedentário a nómada, inversamente à história dos nossos primórdios, como se fosse ler uma história com início a partir do fim… mas, na era da globalização o mapa-mundo, deveria aparecer-nos como uma aldeia, sem fronteira ideológica, política, económica… Mas, na verdade urge a masmorra impenetrável da mentalidade, como que uma tábua de resistência a uma hibridação que já se sente inevitável.

Meto a mochila às costas. Está na hora… Não parti. Fui embora. A vida é um acaso que não permite adivinhas!

 


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